terça-feira, 13 de outubro de 2009

Detetive ao som de Pagode (parte 1)


Meu nome é Antônio Carlos Madureira e trabalho como detetive particular no terceiro andar do Venâncio 2000. A sala é suja e ainda tem marcas do incêndio que ocorreu anos atrás. O antigo inquilino não quis reformar e com o que eu ganho prefiro olhar para as manchas e pensar, que como um aquário, me faz relaxar.

O telefone tocou. Eram 14h20 e estava acabando de engolir o terceiro pastel com refrigerante, o que me fez tossir na linha e o cliente desligar antes de falar qualquer merda.

-Alô?
-Boa tarde.
-Ah, meu nome é Helena. Quem me indicou o senhor foi...
-Não precisa falar o nome. Qual é o problema? Acha que seu marido é infiel?
-Não. Na verdade é com o meu filho.
-A senhora gostaria de vir aqui e conversar melhor a respeito?

Resolvi dar uma geral no ambiente. A voz era charmosa e o bina dizia que era um prefixo do Lago Norte. Esse tipo de gente gasta dinheiro com todo tipo de besteira, logo o caso era garantido.

Entrou uma senhora distinta. Daquelas que foi linda para cacete quando era adolescente e um arraso ao chegar nos 30. Agora tinha olheiras e o rosco marcado, com o que eu chutava ser uma limpeza de pele ressente. Entrou olhando em volta como se não reconhecesse exatamente uma agência.

-Boa tarde.
-Boa tarde.
-A senhora gostaria de sentar? Quer um copo de água?
-Não obrigada.
-Bom, o que aconteceu com o seu filho?
-Na verdade, não é exatamente com o meu filho. Ele é meu enteado.
-Sei.
-O meu marido morreu semana passada e deixou uma herança para mim e para o garoto. Mas existe uma certa...
-Já sei. Quer saber como pegar a parte dele ou mudar o contrato para cuidar do jovem e administrar o dinheiro.
-Não! Por Deus, não.

Isso tava ficando complicado demais, muito boazinha para ser verdade. Estava encucado com o caso antes de pegar.

-O que é então?
-É que no testamento existe uma... como posso dizer? Uma restrição.
-E qual seria?
-Meu marido deixou claro que só deixaria qualquer centavo para o meu enteado, caso ele não fosse gay.
-Que massada!

O velho era esperto. Queria ter certeza que sua prole deixasse seu nome em honra. Agora os quinhentos era provar se o rapaz era ou não chegado em morder uma fronha.

-E o que levou Itálicoo seu marido a desconfiar do rapaz?
-Meu marido era muito machista. Não admitia esse grupo de amigos pintados como artistas, que se depilam e que gostam de teatro e essas coisas.
-Sei... Mas existe alguma prova? Algum envolvimento? Uma carta de amor talvez?
-Não, nada como isso. Mas ele anda com pessoas.
-Que tipo de pessoas?
-Você sabe. Ah, travestis.
-Travestis?
-É.
-Travesti não prova nada minha senhora. É até natural.
-Natural?
-Sim. Todo homem que se preze come, comeu ou vai comer uma boneca. É a mesma coisa que comer uma puta, só se paga mais barato pelo cuzinho e sem celulite.
-Meu Deus!
-Mas não se preocupe. Vou investigar mesmo assim. Tem uma foto do rapaz? Onde ele estuda? Nome completo?
-Tenho sim. Aqui.

Enquanto ela falava que o jovem na foto de sombrancelhas feitas, rosto depilado e maquiagem nos olhos se chamava de Hernandes Gurghel, que estava no primeiro ano do Leonardo da Vinci eu dava uma secada nas pernas da coroa e soltei o preço.

-Vai ficar em seis onças. E obviamente o custo de celular mais passagens.
-Seis onças?
-Ou três peixinhos o que achar melhor.

Ela saiu do escritório. Tinha um caso e 300 pilas na mão em notas novas.

Continua...

Um comentário:

Ginga Media disse...

Curti! Lembrou muito o Mort, Ed Mort. Já leu né?
Aguardo a continuação.
Abração,
Rud.