Hoje acordei com vontade de ter uma máquina digital em minhas mãos. Queria fotografar um pouco de beleza, um pedaço de uma nuca perdida lá em meus lençóis.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Olho
O olho estava incomodando há algum tempo. Coçava para diabos e não parava de arder pela continua esfregação sem fim. Puxava o cílio para cima, deslizava os nós dos dedos na carne macia e vermelha rente ao globo e a agonia não cessava. De tanto mexer acabou por sentir algo quente e macio descer por seus canais lacrimais. Queria enxugar a lágrima e para sua surpresa era um verme que lhe cuspia o olho.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Em um zebrinha
No ônibus hoje (se é que posso chamar de ônibus um zebrinha) estava com minha cara colada ao vidro gelado, ignorando a cara de bunda de uma pessoa por conta de deixar o vidro aberto curtindo um friozinho.
Preso em meus devaneios vi um senhor entrando no ônibus e começando a falar em alto e bom som para que todos escutassem
- Um ônibus com apenas uma porta. Que coisa incrível, eu nunca tinha visto algo como isso. Um ônibus com apenas uma porta. É senhora e senhores, se nos comportarmos esse ano, se formos bonzinhos, ano que vem vamos receber um micro-ônibus com duas portas.
As pessoas estavam simplesmente tentando ignorar o que ele falava e eu fui notando o quanto a crítica era realmente boa. Resolvi me levantar e cumprimentar o homem.
- Boa crítica meu senhor. É verdade, esse ônibus não tinha sido feito para cumprir a função de transitar com tantas pessoas.
- É meu camarada. Qual é o seu nome?
- Eduardo.
- Prazer Eduardo. Meu nome é Willian Guimarães. É exatamente isso meu camarada. Agora que esse ônibus carrega comedor de feijão, trabalhador, o povo, ele ficou apertado. Agora todo mundo percebe que falta uma porta de saída.
- He, he, he.
- Mas eu não me calo não. Tenho 54 anos e não vou me calar nem depois de morto. E sabe o por quê? Porque ninguém cala a revolta meu amigo. Ninguém consegue calar o silêncio aos ouvidos surdos. É... Por que para cada pessoa que me chama de louco, eu preciso falar mais para que outro louco me dê ouvido.
...
- Sou assim mesmo minhas pessoas. Sou um incomodo do trabalho diário, um balançar de cabeças para seu ritmo bovino, mas vocês não podem me calar não. Porque falam que esse é um País de analfabetos, mas isso é mentira! Esse é um País de mudos.
- Caralho... Muito bom. Foi um prazer te conhecer Willian.
- O prazer foi todo meu Eduardo. E me ajuda meu caro! Sou velho mas continuo gritando, aproveita os pulmões jovens que te restam e grite caralho. Bom dia.
- Bom dia.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
O menino no sapato - parte 2
Fiquei olhando aquele garoto que estava com um sorriso enorme no rosto enquanto eu olhava de rabo de olho a fresta da porta.
- Isso não é seu nome.
- Claro que é meu nome. Eu mesmo me dei!
- Você não pode escolher seu próprio nome.
- Não? Quem disse que não? De que vale ser chamado por algo que não é seu. Você não criou o seu próprio nome?
- Não...
- Oras... Então escolha o seu nome!
- Não posso criar um nome.
- Mas vocês vivem dando nome para tudo. Qualquer coisa que vocês querem que seja de vocês possui um nome. Assim como aqueles dentuços de pêlos histéricos.
- Cachorros?
- Eles se chamam de Roufes ou Haus. É assim que eles falam ao menos.
Ouvi minha mãe batendo na porta. E então joguei correndo minha blusa por cima do garoto quando ela entrou.
- Berto você não vai tomar seu café?
- Já estou indo mãe.
- E pare de deixar suas roupas jogadas. Assim elas ficam todas puídas.
Quando fechou a porta notei que ele estava muito chateado por ter sido coberto por uma blusa suja do time de futebol. Ele logo começou a se coçar inteiro e esfregar o cabelo com força.
- Como você pode simplesmente me tirar a luz desse modo?!
- Era para minha mãe não te ver.
- Mãe... Mães nunca pode me ver. Elas sempre estão preocupadas com os filhotes para notar qualquer coisa além deles. São como os pais. Preocupados demais com o que acham ser suas responsabilidades. Tão enfadonho.
- Mas eles precisam ser responsáveis.
- Você não ouve muito bem não é?
- ...
- Eles ACHAM SER SUAS RESPONSABILIDADES não fazem a menor idéia do que signifique de verdade.
Ouvi minha mãe me chamando mais uma vez e corri para vestir minhas roupas. Olhei para o lado antes de sair de meu quarto e pude ver sua mãozinha dando um tchau para mim ao entrar no sapato e uma pequena voz saindo abafada.
- Quando voltar lembre de ter escolhido um nome.
... continua
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Dica de fotolog - Orlando Pedroso

plagiando Tati Reis: segue um bom ilustrador para se perder em linhas e versos.
um pouco mais de Orlando Pedroso
terça-feira, 10 de novembro de 2009
O menino no sapato
Meu nome é Eriberto e hoje ao contrário de todos os dias eu percebi ao tentar calçar meu sapato que algo estava dentro dele. Algo macio e quente que gritou quando pus meu pé.
- Ai! Não olha onde poem o pé não?
Era um menino dentro do meu sapato. Ele era parecido com todos os outros garotos de minha escola. Tirando o seu tamanho.
- Desculpa. Não tinha visto você aí dentro.
- Desculpa... Você quase me esmaga e tudo que pede é desculpas?
- Você está machucado?
- Minha cabeça está doendo um pouco. Tem um turbante?
- Turbante?
Ele pulou para fora do sapato e andou em círculos com as mãozinhas para trás das costas.
- Um turbante. Como ele não pode saber o que é um turbante? Todo mundo sabe o que é um turbante. É um desperdício de diálogo, sem contar uma falta tremenda de educação, machucar alguém e nem sequer oferecer um turbante a ela.
- Desculpa. É que eu nunca ouvi falar de um turbante.
- Claro que nunca ouviu falar de um turbante. Turbante é algo que fica sobre a sua cabeça, que mantêm suas ideias circulando tempo suficiente para que possa escolher uma boa antes de soltar. Francamente...
- Mas o que isso tem haver com seu machucado?
Ele deu dois pulos e coçou a cabeça bastante nervoso.
- Você achatou minhas ideias! Sem um turbante elas ficaram tão finas que podem sair correndo de meu ouvido por todo o quarto. Agora me traga logo um turbante.
Ele teve que me mostrar como se fazia um turbante. Acabei pegando uma gaze e enrolei em sua cabeça. Colocamos um alfinete pequeno na frente para prender. Ele olhou no espelho e pareceu satisfeito.
- Tá. Não é exatamente um rubi mas pode servir por enquanto.
- O que você estava fazendo em meu sapato?
- Ele estava começando a ficar apertado em você e bem sei que garotos não levam a sério suas vestimentas. Sempre comprando coisas novas só por não caberem mais nelas.
- Mas todo mundo cresce.
- Todo mundo não. Só aqueles que gostam de desperdiçar as coisas. Eu nunca cresci e assim tudo que eu uso me serve para sempre.
- Você só tem essa roupa?
Então o menino deu um voleio e se apresentou como um ator de teatro.
- E para que eu precisaria de mais roupas? As pessoas mudam suas roupas porque precisam parecer aqueles bonecos atrás dos vidros. Você gosta de parecer um boneco?
- Não.
- Olhe para mim. Todos que me vêem sabem que uso calça vermelha, uma linda blusa verde com missangas, cordões de couro no pulso e essas sandálias de couro de rato. Sou minhas roupas!
- Você é estranho.
Ele sentou no chão e cruzou as pernas uma sobre a outra como um biscoito.
- Então devo me apresentar. Meu nome é Cyria Multiplisorridevanenoturno.
continua...
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