segunda-feira, 28 de julho de 2008

Tolerância

O artigo que pousava sobre meu colo, em minha leitura ordinária de domingo, falava sobre a tolerância de um anfíbio.

A salamandra possui um período de vida que pode alcançar 10 anos. Pelo menos é isso que pensavam até encontrar uma congelada por mais de 90 anos. O animal foi deixado em banho-maria em água fria e ao descongelar logo voltou a caminhar, provando assim uma enorme capacidade de resistência.

Esse animal não sai da minha cabeça. Ele esnoba de minhas fraquezas e ressacas. Como pode a porcaria de um anfíbio, que posso matar simplesmente por pisar em seu ventre jorrando para fora suas entranhas, sobreviver por longos 90 anos sem ao menos perceber o extraordinário deste ato?

Deixei o artigo de lado e fui arrumar meu quarto, minha estante e notar a displicência que olho as fotos de casamento, dos meus filhos, da vida que finjo ser a verdadeira. Olho para a mulher que estou apaixonado na rua, quando acompanhado de minha mulher e finjo que não sinto nada por ela. Quando nos encontramos, choro em seu colo pedindo um perdão que minha covardia sabe que não mereço.

Vivo a 10 anos uma encenação. Vivo congelado como a salamandra. É por isso que estava irritado esta manhã. Não por ela ter sobrevivido aos 10 anos, mas por saber que ela abriu os olhos e seguiu adiante.

2 comentários:

angelica duarte disse...

o problema é quase sempre mover-se diante da percepção da inércia.

de olhos abertos, preferia simplesmente seguir adiante, e não assistir minhas fraquezas congelando meus ossos.

piotr disse...

sorrimos pro espelho,com pequenos prazeres secretos. Coçamos o cabelo, duas vezes, e saímos. não sentimos vergonha do nossos atos, mas da falta de sinceridade. nessa hora, somos sinceros com todos, menos conosco. irreponsavelmente sinceros.