quinta-feira, 8 de abril de 2010

Jogo Feito

Quando conseguiu abrir os olhos tudo o que ouviu de longe foi o som repetitivo do eletrocardiograma e uma espécie de balão subindo e descendo. O rosto estava insensível e o olho esquerdo fechado em uma bandagem, deixando o direito piscando em busca de pessoas.

Uma enfermeira apareceu sorrindo e dizendo que estava tudo bem, que estava segura agora. Tentou levantar o braço em direção ao rosto mas a agulha e o tubo deixaram o peito da mão pesada e dolorida. Seu braço tinha hematomas tão fundos e enormes que tinham uma tonalidade própria. A dor que ainda sentia era insuportável.

- Se estiver sentindo muita dor podemos aumentar a dosagem. Gostaria querida? Apenas aperte a minha mão duas vezes se for sim. Certo, vou aumentar.

Depois foi o tempo de dormir, acordar e receber visita de um jovem médico. Ele começou contando que as lesões foram severas mas que estavam cuidando dela. Ela estava tocando o ventre sentindo um incomodo duro dentro de si e então ouviu o médico contando sobre o procedimento.

- O ataque foi muito ofensivo... ligar suas trompas... cauterização... estamos combatendo a infecção.

Ali ela entendeu. Veio a sua memória a invasão de sua carne, o arranhar de peles, gritos e como a queimaram por dentro. Lembrou do rosto do homem suado a sua frente e ainda teve a frieza de guardar seu sêmen em um pote antes de desmaiar. Consuelo iria se vingar desse homem.

Passou dois meses até sair do hospital, ainda estava seca por dentro. Cheia de gases e remendos. O rosto nem de longe lembrava a mulher que foi um dia. Era apenas um couro repuxado e em alto relevo. Mas a ira era pessoal, era tudo o que lhe restara.

As vizinhas ainda queria ajudar a colocar ela em casa. Mandou todas a merda. Ninguém quis ajudar enquanto gritava em plenos pulmões. Todas tinham medo de Consuelo, só vinham até sua casa quando queriam seus homens de volta em um trabalho.

Ela abriu o pote sem olhar muito para a casa, principalmente para o chão ainda com sangue pisado. Parte do sangue do seu útero que não serviria para mais nada. O sêmen ainda estava lá. Seco e misturado com sangue.

Ascendeu as velas, preparou um corte junto as agulhas, linhas algodão e diluiu o que sobrou do sêmen seco a cachaça barata que comprou antes de subir. Bebeu bastante dela para que a ouvissem enquanto costurava.

- Faz ele pagar pelo que fez. Esse homem merece o que tiver de pior para ele nesse mundo. Ele abusa de crianças desde de cedo e deixa mulheres vazias por onde entra. Faz ele pagar. Ele tira o nascer de crianças do mundo. Faz ele pagar.

Duas semanas se passaram quando Ailton foi preso. Os policiais não gostam de estupradores, bateram nele até o rosto virar uma papa de sangue preso como queimadura na pele. Quase perdeu a visão do olho esquerdo naquela noite.

Na prisão gostam muito de estupradores. Ele é toda a terapia e descontar de raiva, tesão e impunidade que eles precisam. Batem como um cachorro, quebram seus dentes no primeiro dia e seu estomago vira um receber de jorros masculinos até que tudo que ele vomite seja porra, na segunda semana está na clínica do presídio ouvindo do médico.

- Eu nem deveria costurar o seu rabo homem. Assim vai continuar entrando bem mais fácil.

Ele suporta por apenas um mês. Chorando perde perdão a virgem e se amarra justo a grade, o pescoço não rompe facilmente. Fica sufocado por alguns minutos, tremendo e chorando pedindo para morrer enquanto ouve os presidiários rindo a sua volta. Morre sozinho, inchado e coberto de merda.

- Isso é jogo feito meu irmão. Ninguém demora tanto assim para morrer.

Um comentário:

Fogoió disse...

Antes isso acontecesse mesmo com todos eles... =/