segunda-feira, 29 de março de 2010

Promessas

Fiquei esperando essa ligação durante uma hora no hotel. Tempo demais para agüentar sóbrio o que me convenceu a buscar um bar e ficar conferindo meu celular e sua bateria a cada dez minutos.

Enquanto o uísque não vinha eu digeria Terry Reid saindo das caixas de som, um pouco abafado mas não o suficiente para não deixar a melodia de Easy Rider deixar meus ombros mais leves.

Uma menina, certo não era uma menina mas se pintava tão mal quanto uma, me encarava na mesa em frente. Virando doses displicentes de qualquer coisa azul dentro de um copo longo enquanto fingia gostar da música e se mostrava interessada sem parecer desesperada.

O telefone tocou exatamente quando minha primeira dose chegou na mesa.

- Consegui Fernando. A pasta está comigo.
- Me fez esperar como um louco seu idiota! Onde você está?
- Melhor não dizer. Vamos nos encontrar no hotel mesmo.
- Não, nada de hotéis, você sabe que o combinado era...
- Te encontro lá dentro de vinte minutos.

Maldito crioulo de merda! Odeio essa ansiedade, odeio o uísque que me torna racista e maldito seja Otelo e seu nome de príncipe! Pago minha conta e saio correndo para o hotel. Olho rapidamente para a mulher na mesa em frente e aceno um adeus como se ela fosse uma conhecida.

...

Depois de quarenta minutos olhando para o corpo morto de Otelo na minha frente e a pasta suja de sangue em cima da cama, fico pensando se devo ou não manter a minha palavra.

A chave está em minhas mãos, a Taurus em meu coldre e quando abro a maleta posso ver as fotos e os 250 mil reais em notas de cinqüenta e cem. Meus olhos ficam pendendo entre as notas e o cartão com as impressões sangrentas em meu colo.

- Ligue para minha Suzanne e diga que eu consegui. Entregue minha parte para ela Fernando. Eu confio em você.

São apenas oito números mas para mim parece mais um depósito para uma conta bancária. Uma maldita conta que vai debitar 125 mil reais de minha conta.

Droga Otelo! Por que você foi morrer seu idiota? Seria mais fácil ser honesto com você vivo. Sei que você era um idiota, um ignorante que seria fácil passar a perna. Mas tem a Suzanne... A maldita adolescente com a mãe doente.

O telefone está chamando, isso significa que minha canalhice ainda não é maior do que as necessidades de uma família.

- Alô Suzanne. É o Fernando.
- Hã?
- Seu pai conseguiu menina. Estou com o dinheiro.
- Ele...
- Venha me encontrar, estou no Hotel Pasadeña.

Ela chega quase umas três da manhã. Deveria ter tomado um banho, todo o esforço de esconder o corpo de Otelo e sumir com as manchas de sangue me deixou fedendo mais do que um pedreiro as duas da tarde.

- Aqui está sua parte querida. Os cinqüentas mil que vai ajudar a sua mãe a ter uma morte decente e te colocar em uma boa faculdade quando terminar o segundo grau.
- Por que meu pai não está com você? Por que ele não está indo para casa comigo e me ajudar a cuidar de minha mãe?
- Vamos querida. Você é esperta o bastante para saber que ele fez isso por vocês. Não existia nenhuma chance dele sair vivo dessa.

Menina incrível. Ela quase não chora. Apenas permite que eu a abrace e sinta seu corpo perfeito contra o meu. Seios firmes e pequenos, cintura em forma para mãos segurarem com firmeza e um cheiro de tirar os sentidos de qualquer homem. Ela me pede um beijo e em troca lhe retiro seu fôlego seguido de seu cabaço.

...

Ela vira exausta e até pensa em dormir. Peço que ela se levante e vá para casa o mais rápido que puder. Sei que quem matou seu pai deve saber onde estou, não será seguro para nenhum de nós se ela ficar.

- Meu pai? Ele disse alguma coisa sobre mim?
- Apenas para eu não me engraçar com você. Mas creio que isso também seja passado agora.
- Eu te amo Fernando.
- Não é amor querida. Mas vai entender isso com o tempo. Agora vá.

Uma mulher de verdade. Retira-se com toda a dignidade que consegue manter entre seus passos bambos.

Quando ela fecha a porta eu sento na cama e ouço um estalo seco. Parece que algo molhado caiu sobre meu colo e quando toco, sinto o calor empapando o lençol. O sangue surge espesso e rapidamente na colcha branca. Sinto minha cabeça pesar enquanto ouço atrás de mim.

- Deixei que comesse a menina. Achou realmente que teria tanta sorte assim em uma só noite?

Não. De fato não achei.

Fico pensando no rosto de Suzanne e como fechou os olhos quando eu a penetrei. Eu sorrio, dizem que uma mulher nunca esquece o homem que tirou sua virgindade.

2 comentários:

Rê Cicca disse...

Ótimo texto. Parabéns ao blog!
Eduardo também lê
http://descompensando.blogspot.com/

Fogoió disse...

Você literalmente me instiga a leitura mlk. =)
Tu é foda!!!