quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Em um zebrinha

No ônibus hoje (se é que posso chamar de ônibus um zebrinha) estava com minha cara colada ao vidro gelado, ignorando a cara de bunda de uma pessoa por conta de deixar o vidro aberto curtindo um friozinho.

Preso em meus devaneios vi um senhor entrando no ônibus e começando a falar em alto e bom som para que todos escutassem

- Um ônibus com apenas uma porta. Que coisa incrível, eu nunca tinha visto algo como isso. Um ônibus com apenas uma porta. É senhora e senhores, se nos comportarmos esse ano, se formos bonzinhos, ano que vem vamos receber um micro-ônibus com duas portas.

As pessoas estavam simplesmente tentando ignorar o que ele falava e eu fui notando o quanto a crítica era realmente boa. Resolvi me levantar e cumprimentar o homem.

- Boa crítica meu senhor. É verdade, esse ônibus não tinha sido feito para cumprir a função de transitar com tantas pessoas.
- É meu camarada. Qual é o seu nome?
- Eduardo.
- Prazer Eduardo. Meu nome é Willian Guimarães. É exatamente isso meu camarada. Agora que esse ônibus carrega comedor de feijão, trabalhador, o povo, ele ficou apertado. Agora todo mundo percebe que falta uma porta de saída.
- He, he, he.
- Mas eu não me calo não. Tenho 54 anos e não vou me calar nem depois de morto. E sabe o por quê? Porque ninguém cala a revolta meu amigo. Ninguém consegue calar o silêncio aos ouvidos surdos. É... Por que para cada pessoa que me chama de louco, eu preciso falar mais para que outro louco me dê ouvido.

...

- Sou assim mesmo minhas pessoas. Sou um incomodo do trabalho diário, um balançar de cabeças para seu ritmo bovino, mas vocês não podem me calar não. Porque falam que esse é um País de analfabetos, mas isso é mentira! Esse é um País de mudos.
- Caralho... Muito bom. Foi um prazer te conhecer Willian.
- O prazer foi todo meu Eduardo. E me ajuda meu caro! Sou velho mas continuo gritando, aproveita os pulmões jovens que te restam e grite caralho. Bom dia.
- Bom dia.

2 comentários:

Rosa disse...

Fantástico... país de mudos, ele tem razão, nos calamos por demais, é a pergunta fica: a troco de que?

Lucorall disse...

Parece até um incomodo ter uma porta...pode ser...mas isso obriga as pessoas serem menos impessoais, na cidade deserto....