quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Silêncio

Existe algo de magnético em um corredor de hospital é uma aversão tão equilibrada quanto a atração de entrar em um dos quartos e fugir/ver o que está nitidamente tão próximo do que chamamos de futuro.

Eram três da tarde quando após meses de solicitações, galanteios e súplicas resolvi (por conta própria, deixo claro) visitar Arnaldo. O estado dele era crítico, desde o estúpido acidente de moto na curva da entrada do Beirute onde ele não viu o carro que o fechou com uma placa enorme sobre uma festa de final de ano no Pontão, ele não acordava fazia meses e até onde sei cagava em uma fralda e respirava por aparelhos.

Felizmente ele tinha uma família privilegiada. A mesma que pagava os melhores médicos e aparelhos, comprou aquela moto idiota de filme Americano que corria mais do que sabia frear na hora certa.

Só parei de pensar em quanto odiava aquela família ao entrar no quarto da UTI e encontrar a mãe de Arnaldo tocando, o que aparentou a primeira e confirmou a segunda vista, uma punheta para o próprio filho. A imagem que me paralisou de início me fez reparar três fatos:

1 – Arnaldo tinha 35 anos e sua mãe uns 60, o que fazia a cena um absurdo por sí só.
2 – A tarefa era feita com tanto zelo e afeto que me tirou qualquer dúvida de incesto.
3 – O modo mecânico e o detalhe da toalhinha deixada logo próximo ao ventre com lenço de papel e o vidro de soro fisiológico me deixou claro que não era a primeira vez que havia feito, obviamente não da senhora punheteira aqui narrada, e sim do ato no próprio filho vegetativo no leito de hospital.

Ao me notar ficamos ambos estáticos. Eu com minhas flores e ela com a pica. Ambos sem saber bem onde ou o que esconder um do outro. Até que as lágrimas, sempre elas, finalmente deixaram o clima mais brando para que qualquer confissão fosse feita.

Aparentemente, pelo o que ela me explicou, vários homens sofrem de ereções contínuas enquanto em estado vegetativo. Ereções incríveis de dias. Ereções essas que deixam o pobre vegetal com seu falo arroxeado e com varizes por falta de uso ou de solução para seus espasmos involuntários.

Inicialmente ela conversou com os médicos (dentro de seus limites de humanismo clássico) que apenas contaram que poderia passar ou não, com as mais carinhosas das enfermeiras (que obviamente na presença de uma senhora desesperada não diriam nenhum gracejo ou piada sobre ingressos e filas para o espetáculo dependendo do ator representando nessa angústia) que não disseram muito mais que os médicos até que a pobre senhora pensou em duas soluções:

1 – Poderia contratar uma prostituta para aliviar seu filho de tempo em tempo. Tarefa essa rapidamente descartada pelo valor exigido e obviamente pelo rodízio de visitas dada à carência de uma fidelidade da profissional.
2 – Seguir o principio universal do… “Se quiser um serviço bem feito…”

Conversamos por mais umas duas horas, obviamente fora do ambiente hospitalar, onde finalmente a consolei. Tinha a certeza mais do que absoluta que nenhuma mãe haveria de ser tão carinhosa e prestativa para um filho, quase disse que os invejava mas obviamente pela questão levantada mantive esse pensamento para mim mesmo.

Então nos despedimos e finalmente pus em minha cabeça que jamais iria visitar novamente Arnaldo, pelo menos não sem marcar hora antes.

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