terça-feira, 14 de março de 2017

Detetive ao som de pagode

Ele não acreditava em milagres, salvo o Botafogo ser campeão mundial, mas preso em uma máquina com um som monótono ele percebe que não existem milagres, apenas uma maldição de existência após três tiros nas tripas.
- Senhor, Madureira?
O policial de terno barato estava aguardando no sofá de visitas. Pelo menos alguém na falta de um familiar.
- Meu nome é Antônio Silva. Precisamos conversar sobre os assassinatos que ocorreram.
- Legítima defesa.
- Não duvido disso, mas preciso que...
- Só com meu advogado presente.
A paciência do policial acabou e ele aperta o saco de soro fazendo meu peito pular e o braço sangrar.
- Escuta aqui, seu merdinha. Quem você matou era um homem importante. Importante o suficiente para te manter vivo. Que tal começar a falar aonde está a menina?
Não entreguei a garota sobre ameaças, tinha dito que ela valia a minha vida, mas impressionantemente um homem pode mudar de ideia ao sobreviver ao sacrifício.
- No meu escritório! Não tem como errar é a sala queimada e cheirando mal.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Doces de domingo


Após o almoço surge aquela necessidade absurda por uma pequena dose de glicose, a mesma que nos impede de dormir sobre os pratos e preserva a etiqueta do papo furado de domingo na casa da tia Antonieta. O próprio nome já remete ao ambiente com bibelôs e rococós por toda parte. Fico pensando se a maioria das viúvas de setenta anos são bregas pelo período que nasceram ou se pelo longo período de abstinência de contato social.

Voltando a cena da exigência glicogênica, vejo a exposição clara da crise econômica sobre a mesa. Nada de compotas, tortas, pudins e manjares deleitando nossos olhos. A tradição de antigos domingos é destruída pela visão triste e azulada de uma caixa de bombons. Um lamento passa por todos presentes e imagino que se meu tio Angenor ainda estivesse vivo morreria de desgosto. A diabete o levara no ano passado, o que para muitos da família foi um assassinato premeditado partindo de sua companheira que agora estava confirmado. Por que o fim dos doces após a morte de tio Agenor? A missão estava consumada. Essa cruel e maquiavélica doceira de mão cheia concluiu seu plano e agora não nos oferecia seus quitutes pois nunca foram nossos. Eram adocicados venenos, bem calculados e organizados para um fim que finalmente chegara.

As crianças avançaram para a caixa, ávidas para escolherem os seus favoritos, os mais velhos se resignaram a simplesmente ignorar e já pairar seus interesses no aroma do café e talvez na pilha de jornais e revistas estacionadas na poltrona de frente a TV. Era inevitável! O fim das conversas animadas durante os gemidos de prazer ao sentir o caldo de ameixas em meio ao manjar branco, a obliteração das piadas sacanas estimuladas pela overdose de açúcar ao degustar uma laranja encharcada recém saída de uma compota. Era isso. A aniquilação de uma família residia em uma mesa sem doces reduzida a uma caixa de bombons.

Já estava me retirando quando vi aquele pequeno bombom azul bebê olhando para mim. O mesmo olhar que me trazia doces memórias de um período de joelhos ralados e beijos roubados com minha prima Catarina atrás da distribuidora de bebidas do tio Fernando. Aquela criatura manhosa, de olhar plácido, que agora mais me parecia de um hippie maconheiro, com uma flor nos lábios me prometendo uma inesquecível experiência ao rasgar do lacre e deixar a suave película de chocolate romper entre meus dentes me levando ao paraíso em forma de caramelo com leite maltado. O nome ainda estava ali como uma promessa, um pedido de desculpas por um longo período de ausência: Lollo.

Arranquei o chocolate da mão do incrédulo filho de Catarina. Quem mandou ela se casar com esse Antônio que nem da família era?  Ela que aguente seu pranto agora. Fiquei com a guloseima nas mãos, me lembrando da tristeza ao ver na televisão sua odiosa transformação e traição. O chocolate de uma vaquinha amorosa e amarelada se vendendo aos planos maquiavélicos de marketeiros imperialistas, transformado em piada, expondo seu traseiro ao som de um Hit odioso de Lá Vem o Negão e, como se não bastasse, se afastando de nós em um nome impronunciável. O nome, o maldito nome que sempre me fazia passar vergonha ao tentar pedi-lo nas lojas de doces.

- Seu Manoel quero um Lollo.
- Um o quê, menino?
- Aquele chocolate macio.
- Qual? Não tenho nenhum Lollo.

O pobre senhor Manoel era meio gagá. Não posso culpá-lo pelo Alzheimer adiantado que o impedia de se lembrar que, alguns meses antes, o novo chocolate chamava-se simplesmente Lollo e não este nome estrangeiro idiota que, por não conseguir pronunciar, algumas vezes gerando risadas de outros garotos da minha rua, me obrigava a pedir outro e sentir o amargor da derrota em meio a mordida de Chokitos e Sonhos de Valsas.


Poucas memórias me fizeram sofrer tanto quanto esse chocolatinho de vaca lesada em minhas mãos. Minha esposa e a própria tia Antonieta vieram me consolar ou pelo menos tentar entender o porque das lágrimas e risos constrangedores que começavam a assustar as crianças e servir de último prego em um domingo que fatalmente chegava ao fim.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Em uma praia

Quantas pessoas já caminharam nessa praia?
Quantos primeiros beijos foram dados nessa praia?
Quantas crianças vestiram capas e defenderam fortes nessa praia?
Quantos viram o mar pela primeira vez nessa praia?
Quantas pessoas choraram nessa praia?
Quantos olhares foram trocados nessa praia?
Quantas famílias passaram férias nessa praia?
Quantos cães correram em direção ao mar nessa praia?
Quantas pessoas fizeram exercícios nessa praia?
Quantos relacionamentos terminaram nessa praia?
Quantas músicas foram tocadas nessa praia?
Quantos velhos lembraram da juventude nessa praia?
Quantas mulheres sorriram para si mesma nessa praia?
Quantos perderam o ônibus e não puderam estar nessa praia?
Quantas pessoas terminaram de ler um bom livro nessa praia?

Quantos textos já foram escritos nessa praia?

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Peregrinação

Santiago nunca teve grandes ambições, apenas viver lhe bastava. Ser o mais monótono ser humano de toda existência e passar despercebido pelo planeta. De certa forma ele já tinha sido moldado para isso, Santiago nascera em Brasília.

O que simboliza a rotina para um homem que é um verdadeiro ciclo vicioso? Ele não conseguiria ser mais superficial mesmo que tentasse, convenhamos, ele nunca tentou nada de verdade. Seus dilemas, suas fraquezas, suas crises, seu olhar para a janela perguntando-se: “Por que não me atiro de vez?” Mas sabemos o motivo, Santiago era apático demais até para uma decisão sobre o fim de sua apatia.

Em algumas raras ocasiões esta sensação sublimava e parecia que ele fazia parte de algo mesmo em uma multidão. Sabe quando olhamos para um grupo de pessoas andando no centro de alguma grande cidade, como São Paulo, Nova York ou Tóquio? Sentimos que no meio daqueles olhares apressados, em direções mescladas, existe alguma unidade, uma espécie de finalidade urbana orgânica. Quase como um modo da cidade dizer que naquele instante os olhares vazios estão em uníssono gritando: “Somos um! Temos uma função!” Talvez ali, naquele momento, Santiago poderia fazer parte de algo, mas estamos falando de Brasília e em Brasília multidões duram apenas o tempo de atravessar uma faixa de pedestre na rodoviária.

Não. Ele não poderia buscar nenhuma finalidade para si, nenhuma forma de superação para sua pequenez e solidão. Bastava estar sozinho para olhar diretamente aqueles que dizem não estar para ter a certeza que, de fato, todos estamos. Casais sem assuntos sentados na mesa, pais lembrando-se por um segundo do porquê tiveram filhos, jovens gritando por mudanças que não acreditam e bêbados buscando companhia para virar copos enquanto sofrem sozinhos. Todos vivendo um ciclo de companheirismo cênico dia após dia.

Atravessar a cidade no final da noite era um dos poucos momentos de euforia de seus dias. Saía de casa perto das 10 da noite no final da W3 Norte em sentido a rodoviária para depois voltar. Sempre ficava próximo da janela, colando sua testa protuberante e gordurosa no vidro gelado. Gostava de olhar as prostitutas fumando nas paradas, algumas vezes descia e esperava por perto o próximo ônibus que completaria seu destino. Nunca pensou em sair com uma delas. A simples ideia de convidar uma prostituta para dentro de um ônibus não fazia sentido e ele nunca aprendeu a dirigir. Convidar uma delas para ir andando também não parecia correto, mesmo que uma das paradas estivesse a menos de 100 metros de sua kitnet. Não, ele preferia assistí-las, seja passando por elas ou aguardando o ônibus na parada. Carregava consigo um maço cheio de cigarros que nunca fumava, mas sempre oferecia.

Em sua casa ele não possuía nada além do mais funcional possível. Sem televisão, sem rádio, sem livros, sem animais, sem plantas, sem fogão. Apenas uma mesa de centro vazia, um armário com suas roupas, sua cama, um frigobar e um quadro que até hoje não sabe o porquê comprou na Feira da Torre. Tinha algo naquele quadro que chamou sua atenção à primeira vista. Algo sobre as cores talvez, ou a ausência delas. Não saberia dizer, nunca entendeu nada sobre arte e jamais pesquisou a respeito. A compra desta peça era uma incógnita e talvez por isso todas as noites ficasse olhando para ela por alguns instantes antes de dormir.

O que simboliza a rotina para um homem que é um verdadeiro ciclo vicioso? Para Santiago a rotina era uma benção, um salvo conduto. Não ter que planejar os seus dias era o que mais o agradava. Acordar ao toque do despertador, escovar seus dentes, tomar o seu banho, descer até a padaria para tomar seu café da manhã, ir ao trabalho, sair para o almoço, voltar ao trabalho, ir para casa, tomar outro banho, pegar um ônibus até a rodoviária para depois voltar para casa olhando as prostitutas antes de perder o seu olhar no quadro e ir dormir. Santiago nunca teve grandes ambições, apenas viver lhe bastava. Ser o mais monótono ser humano de toda existência e passar despercebido pelo planeta. De certa forma ele já tinha sido moldado para isso, Santiago nascera em Brasília.

sábado, 31 de agosto de 2013

Fisioterapia - Parte 1

Nota: Após um abandono real de meu blog, volto com as postagens. Segue inicialmente um exercício de fisioterapia literário em algumas partes, até que minhas ideias voltem por conta própria.

Teste de escrita 01.

Temas sorteados: Perda do Amor / Mítico / Nômade

O palco está quase montado. Mantos cinza e garrafas pets com velas constroem o Tártaro, ou pelo menos nos dá pistas para que possamos construí-lo por nós mesmos. E aqui estou em frente as cadeiras vazias com uma maquiagem incompleta e sentindo frio.

- Paulo, você ainda não está pronto?!
- Orfeu, Fernanda. Meu nome é Orfeu. 
- Não enquanto estiver usando jeans. Vá logo se arrumar!

Adoro tudo o que o teatro representa. Cores, cheiros, imaginação, roteiro e, claro, a atuação. Estar em um palco é a permissão de ser outro na frente de todos, é o escapismo verdadeiro de quem somos. Um peregrino de nós mesmos.

- Paulo, existe alguma chance de conversarmos sobre o que aconteceu ontem?

A maquiagem cumpre o seu papel. Ela não poderia estar mais morta. As manchas, a palidez... Assim, de fato, ela lembra uma aparição do que já foi.

- Você morreu, Eurídice. Foi isso o que aconteceu.

Vejo gotas destruindo a maquiagem e o traído em mim não tem como evitar notar a beleza neste ato.

- A cortina vai abrir em cinco minutos, é melhor você criar um novo rosto.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Organograma


Olho atentamente para o círculo em azul em volta do dia 31 de janeiro de 2013, hoje foi a data que marquei para morrer.

Faz exatamente três meses que pensei pela primeira vez em acabar com a minha vida. Olhando para trás vejo que a expectativa sobre as festas de final de ano fora demasiado pretensiosa. O mês de janeiro acabou e estou com a ferramenta necessária para acabar com todas as dúvidas.

Investir um pouco de dinheiro todo o mês para comprar uma Taurus calibre 38 talvez tenha sido meu único projeto bem sucedido. Irônico notar que entre pagar as contas, comprar meus remédios, uma prostituta e assistir dois filmes, existiu uma reserva para comprar a arma de um desconhecido que aumentou o valor na última semana.

A prostituta. Algumas pessoas acreditam realmente que suicidas são pessoas tristes, amarguradas e que provavelmente são carentes de amor em suas vidas. Não é o meu caso. Não tenho nenhuma tristeza, amargura e falta de amor acima da usual urbana. Decidi trepar com uma prostituta pelo simples motivo de saber como era trepar com uma antes de morrer. Simples assim.

Pensei se deveria escrever uma carta, mas mudei de ideia ao pegar a caneta. De que valeria deixar algo se ninguém leria? Realmente gostaria de meus esforços tão ridículos em um talento que jamais possuí fosse ainda mais medíocre sendo lido por um policial ou um legista? - “Deixo aqui... bla bla bla... o mundo é cruel... bla bla bla... Sou um derrotado! Deixa isso para lá, o que temos para almoço?” - Não, prefiro deixar apenas uma sujeira no chão e com sorte manchar uma barra de calça desses prestadores de serviço.

Coloco as seis balas dentro do revólver e sinto o seu peso em minha mão. É uma arma pequena, mas parece realmente poderosa. Uma pressão e tudo acaba. Não a toa que tantas pessoas são assassinadas todos os dias, o controle de uma vida no contrair de um dedo. É impressionante.

Abro a minha boca, sinto o ferro gelado de encontro com minha língua e sinto o bater suave nos meus dentes de baixo. Jurava que estaria trêmulo, mas acho que isso significa que estou realmente pronto. É como sempre me disseram que seria uma sessão de Yoga, estou em paz. Encontrei Buda dentro de minha boca.

Um pensamento engraçado passa por minha cabeça e não consigo evitar de sorrir. Será que sentirei o gosto da pólvora?

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Ecos



Avisos são como ecos quando se está sozinho. Você os escutou durante alguns anos e meses até que tudo o restou são as memórias do que foi dito e não feito.

domingo, 12 de agosto de 2012

Guayasamin



Era a segunda vez que Rita me tirava de casa em um domingo contra a minha vontade. Confesso que resistiria com mais afinco se não fosse o tom de sua voz me chamando ou o modo como ela se vestia sempre que nos encontrávamos. Tinha algo naquelas roupas que me fazia acreditar que ela tinha se vestido para mim.

- Olha, eu tenho certeza que você irá adorar. Confia em mim.

Ruas vazias, crianças correndo ouvindo broncas, uma claridade absurda e uma companhia de botinhas altas com um vestido de verão andando em minha frente acompanhada de um sorriso incrível.

- Ele é um dos maiores artistas Equatorianos, não tem como você não gostar.
- O que ele faz?
- Cala as pessoas.

Bato o olho em dois quadros expostos e já percebo que me arrependi de sair de casa, mais um imitador de Portinari. Em pensar que poderia estar assistindo a reprise do jogo de vôlei. Melhor investir em algo depois daqui, assim tenho a certeza que minha companhia de domingo será frutífera.

- Abriu um bar com temática japonesa na asa sul. Não sei se você gosta muito.
- Eles servem sushi?

Vejo um enorme quadro que me faz pensar o quanto está frio aqui dentro, são enormes mãos calando qualquer tipo de idéia sobre cantadas. São lágrimas descendo por um rosto feito em pedra, tanta dor e aspereza que jamais deve ter pertencido a algo vivo. Então sinto uma mão em meu ombro.

- Ele é incrível, não é?
- É sim.

Passeio por algumas galerias lendo o grito de seus rostos. Essa dor congelada e a angustia que rompe qualquer elasticidade que houve um dia nos músculos que serviram a essas idéias chamadas de homens. Essa nódoa que é estar vivo sem entender o propósito, esse peso de uma cobrança além de nossos suportes é a indelicadeza posta as claras em nossas próprias sombras.

- Sabia que você iria gostar.
- Obrigado.
- Sabe? Acho que vou dispensar o sushi.
- Você já leu “O Cobrador” de Rubem Fonseca?

Ela me oferece um sorriso ainda mais irrecusável que seu convite, eu espero surpreende-la ao mesmo nível.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Fissuras

Parece que algo rompe-se dentro de uma mulher cada vez que você a magoa. Um pequeno traço invisível e sutil demais para que seja tocado, efêmero demais para que você possa embalar em seus braços e tão denso que é capaz de sentir mesmo ao virar o rosto.

Algumas discussões podem ser as últimas, assim como bom dias.

terça-feira, 27 de março de 2012

Tum... tum... tum...

Frases ditas depois que o telefone foi desligado:

- Não terminei de falar!

- Sinto sua falta.

- Onde mesmo?

- Alô? Alô?

- , eu também.

- Tchau.

- R$ 27,50

- O quê?

- 912 Sul.

- ...

- Sou eu ...

Tum... tum... tum...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Em um Pub Irlandes...



- One pint of Guinness and one short.
- Rigth. Just it?
- No. I want... a Desert.
- What?
- This here. Chocolate...
- Ah... Ha, ha, ha. Desserts! Very cold for a Desert.
- Ha ha ha... Yes.
- Where your from?
- Brasil.
- Brazil! Great Football.
- Hum... Not any more.
- True... Spain is better now.
- *Sigh...* But it's a great Country.
- Off course. Great beach, women and drinks.
- Here too. Great Beer.
- No... not in London. The best beer is from my land. Irish! hehehe
- Hehehe. Thanks man.
- Thank you fella.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Ouvindo The Strokes

Fernanda estava cansada de ouvir uma música gritar tanto o seu último final de semana. Odiava acessar a porcaria do seu facebook esperando que aquela ridícula bolinha verde aparecesse, de que adiantaria no final das contas? Qual foram as vezes que Patrícia respondia de volta?

Heart in the cage continuava zombando no repeat e toda vez que ela tentava desligar algo dizia que ela deveria ouvir a porcaria do mantra. Por que diabos tinha ficado com essa mina? Sabia desde da primeira long neck que não deveria olhar para ela dançar. Na segunda ouviu a si mesma não se aproximar mais do que a multidão a sua volta. Quando pediu a terceira não deveria ter tocado seu antebraço como tocou. Era a quarta ou quinta garrafa quando estava sentindo o sorriso dela tão próximo?

“I don't want what you want
I don't feel what you feel”

- Qual é o seu nome?
- Fernanda.
- Você é a amiga da Kátia não é?

O modo como o cabelo dela colava no suor perto da nuca, o sorriso mostrando sua gengiva vermelha e aqueles caninos tão brancos e pontudos, ela ficou imaginando como seria ele prendendo seus lábios.

Ela dançava como se a pista fosse uma cama. Ela olhava como se Fernanda fosse música. Aonde estamos?

“Help me I'm just not quite myself
Look around there's no one else left”

- Fica comigo hoje?
- Eu nunca fico para dormir.
- Experimenta comigo?
- Você é linda...

Desligar o iPod não fazia nenhuma diferença. Ela ainda ouvia a música mesclada ao cheiro Patrícia.

“I'm sorry you were thinking; I would steal your fire.”

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Marasmo (por Catarina)

Já eram umas 10 da noite e Catarina estava terminando de se vestir. Tinha escolhido uma meia calça grossa, estava morrendo de vontade de estrear o vestido que ganhou de sua amiga em uma viagem a Catalunha, e enquanto colocava seus brincos ia pensando que valeria a pena enfrentar a friaca de Julho hoje à noite.

O telefone toca e ela sente uma preguiça inacreditável ao ver o número.

Diego? Tipo, sério cara? Lá viria algum convite direto para sexo ou meias palavras que no fim significavam a mesma coisa. Por que ele não me surpreende ao menos uma vez?

- Alô.
- Opa... eae?

(AI MEU DEUS...)

- Eaê cara. Tudo bem?
- Tudo. Qual é a boa de hoje?
- Ah, não sei ainda. Estou esperando uma ligação.
- Eu te liguei.

(PREGUIÇAAAA!)

- Então cara, tô saindo já. A gente se fala outro dia beleza?
- Poxa, queria te ver... Tô com saudades de ti.
- Por que não me ligou sei lá... Mais cedo ou semana passada?
- Porque você me disse que não curte os caras que ficam correndo atrás de ti.
- Disse?
- Aham.
- Então acho que você não me entendeu.

Ligação encerrada. Quase perde o ânimo, mas então se lembra do convite das meninas para a festa. Lembra-se do motivo de estar usando esse vestido lindo nesse frio absurdo. E tem certeza que assim que encontrasse com Letícia e aquele gato do Marcos a música iria fazer seu sorriso durar até o final da noite.

Marasmo (por Fernando)

- Pensei que você não ia chegar nunca.
- Gosto de fazer você esperar um pouco.

Fernando mal fechou a porta e já encostou Otávio contra a parede, adorava o modo que ele segurava a lateral de sua calça como se estivesse a ponto de tirá-la. Era a terceira noite que estavam se encontrando direto desde que convenceu-lhe a sair do trabalho direto para sua casa. Ele já estava ficando louco só de sentir sua barba mal feita.

- Acabei esquecendo de fazer. Quer que eu tire?
- Cala a boca seu sacana.

O sorriso era incrível e então ele finalmente estava atento ao saco de supermercado úmido e gelado colando a sua calça.

- Ah, trouxe umas latinhas. Deixo na geladeira?
- Aham. Vai deixando lá que vou atender o telefone um instante.

...

- Fernando tá de bobeira hoje?
- Ah gato, to aqui com o Otávio tomando umas cervas. Quer vir?
- Vocês querem ficar sozinhos?
- Claro que não! Basta vir.

...

- Aqui sua cerveja. Quem era?
- Um amigo meu. Acho que tá precisando de companhia.
- Amigo... Amigo?
- Não. O Diego é hetero. Um amigo das antigas... Por que você não pegou as tulipas?
- Porque você vai receber uma visita, então deixo nosso encontro para daqui a pouco.
- Você é tão lindo.
- Eu sei.

...

A campainha toca e Diego entra olhando meio sem graça para o garoto bem mais novo no sofá. Fernando sempre se envolve com esses tipos vez após vez, fica impressionado como aparentemente ele tem sempre mais companhia do que ele.

- Trouxe uma caixa de Heineken...

...

Fernando fecha a porta do quarto segurando o riso e olha Otávio tirando sua blusa de botões deixando a mostra a regata que ganhou de presente dele. Os ombros dele eram largos e de longe era o homem mais gostoso que já tinha pegado.

- Um dia você ainda me deixa sem graça com o jeito que você me olha.
- Não consigo te olhar de outro jeito. Ainda estou tentando entender a sorte de ter arrastado você para dentro da minha casa.
- Pensei que você tinha certeza do motivo. Pareceu tão seguro falando com seu amigo.
- Ah, pelo amor de Deus... Você sabe que não tem diferença nenhuma.
- É acho que não. Seu amigo não se importa de nós dois dentro do quarto?
- Não. Eu dividi o apartamento com ele durante a faculdade.
- Ah... então ele tá acostumado com universitários gritando e trepando como coelhos?

Ele tira a regata e abraça Fernando firme o bastante para que ele deixe escapar um gemido antes de morder seu queixo.

...

São duas da manhã quando Otávio sai do quarto e vê Diego deitado no sofá cercado de latas de Heineken. Volta para pegar um lençol e ao cobrir Diego ele acorda, ainda bêbado.

- Sou tão fracassado assim?
- Acho que somos todos.
- Homens?
- Humanos.

Risos

- Sabe... Fernando é um cara legal. Ele... Ele é difícil as vezes. Mas sempre tá certo sabe?
- Ele é sim.
- Acho que ele gosta de você.
- Gosto muito dele também. Mas você não tem como ter certeza sobre isso, estamos só curtindo.
- Não... Ele gosta de você. Gosta mesmo...
- Você quer água?
- ...
- Diego?

Marasmo (por Diego)

Hoje fez uma noite fria no final de Julho pela Asa Norte e Diego decidiu que ficar em casa assistindo seus filmes não estava servindo para nada além de câimbras e o início de uma depressão de merda.

- Vai fazer alguma coisa hoje?
- Ah, não sei ainda. Estou esperando uma ligação.
- Eu te liguei.

Engraçado quando um cara percebe que não é a prioridade de alguém. A maioria dos homens com quem conversava diziam sempre que jamais foram a segunda opção de uma mina e ele sabia que a maioria mentia.

- Fernando tá de bobeira hoje?
- Ah gato, to aqui com o Otávio tomando umas cervas. Quer vir?
- Vocês querem ficar sozinhos?
- Claro que não! Basta vir.

Fernando era seu melhor amigo desde os 15 anos. Foi a primeira pessoa que confiou um segredo a Diego, talvez por que ser gay de fato não era nenhuma surpresa.

- Trouxe uma caixa de Heineken.
- Vou colocando na geladeira. Otávio esse é o Diego, Diego esse é o Otávio.
- Olá.
- Prazer.
- Esse é o Diego, ele trabalha com o emprego mais chato do mundo então não vou ser mal educado falando isso.Fernando disse da cozinha enquanto buscava três latas de Skol.
- Todos os trabalhos são chatos na verdade não é? Eu trabalho no café Savana servindo mesas o que você faz?
- Sou funcionário público. Trabalho na...
- Sua cerveja querido. Ninguém quer saber o que burocratas fazem, mas nos conte, quem te deu o fora dessa vez?

Odiava parecer tão previsível assim.


- Não foi exatamente um fora.
- Aham... então sua ideia de diversão em uma sexta-feira a noite é conversar com seu amigo tomando uma cerveja?
- Qual seria o problema de tomar uma cerveja com os amigos? Preciso buscar uma balada todo final de semana, que saco!
- Diego... Te conheço desde moleque. Que tal você começar a falar logo? Não vou esperar você ficar bêbado, ainda quero transar hoje.

Algumas risadas

- Tá seu merda. Tô saindo com uma mina aí, ela é bem gata e sei lá... Queria apenas que ela pensasse um pouco mais em mim do que ela pensa nos demais, só isso.
- Tô saindo com uma mina aí... Assim você não me convence de forma alguma que ela vale a pena sequer eu dispor meu tempo em te ajudar. Essa racha tem nome? Rosto? Ou você já começou a diminuir a importância para ti? Se for assim, eu te aconselho a beber rápido, passar em algum lugar bacana com essas roupas caras que você adora e usar toda sua pose de macho alfa que você ama ser e esperar o sorriso da primeira pré-universitária que você fixar seu olhar.
- Olha eu não quero me intrometer mas concordo com o Nando. Ela é realmente importante para você?
- O nome dela é Carina e estou pensando mais nela do que eu deveria, acho que é isso.

...

- Queria que... Porra sei lá. Queria que ela tivesse me buscando sabe? Que eu fosse...
- O foco dela. A prioridade. Seu Senhor.
- Quê?
- Para de ser egoísta Diego. Se você quiser que a menina faça de você o seu foco, no mínimo você tem que oferecer algo para que isso aconteça. O que você tem oferecido para qualquer mulher nos últimos tempos?
- Vai a merda Fernando! Qual é cara? Tú por acaso acha que tem sido fácil ficar com qualquer uma dessas minas hoje em dia? Elas estão muito loucas cara, não querem nada com nada, ficam com qualquer maluquinho nessas baladas e rejeitam qualquer um que tente dar algo certo para elas. Tú não sabe nada de minas vai por mim! Andar com essas garotas e discutir sobre suas roupas e homens não te transforma em um especialista em mulheres. Ninguém vai entender uma mulher até comer uma. Elas são loucas!
- Sim elas são loucas. Claro que são! Imagine viver cercada de idiotas como você? Imagine não ter nenhuma outra opção já que toda sua carne, foco, mente, vida são voltadas a tentar entender o por que da atração por um gênero tão egoísta.
- Eu...
- Diego, eu me envolvo com homens há tanto tempo que sei exatamente o porque qualquer uma dessas meninas estão fugindo e preferindo continuar perdidas. Elas estão seguindo exatamente suas palavras. Elas preferem rejeitar qualquer maluquinho em baladas, já que elas não encontraram nenhum... meu deus como você é idiota... “algo certo” para elas. Entendeu?

...

- Toma mais uma cerveja gatinho. Fica a vontade, a geladeira tá aberta, só encosta a porta quando você for sair tá?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Sono

Percebi hoje que gosto de insônia.

Dormir pouco me deixa mais acordado. Eu perco uma sequência de barreiras que crio em meu dia e simplesmente estou nele. Nunca fui tão participante do que em minhas 24 horas despertas, acredito que existe uma verdade quando dizem que passamos 1/3 de nossas vidas dormindo. O que me surpreende mais é as horas que perdemos acordados.

Tudo é menos real. Voltar para casa em um ônibus passa em segundos quando você foca sua atenção as pessoas, sons, componentes e o balançar de algumas toneladas de metal que se tornou por alguns instantes todo seu interesse. Então você chega e desce para o caminho da sua casa.

Quebrei meus últimos tabus. Entendi finalmente todos os malditos motivos para o encucar da vida alheia, essa peste bubônica que deveria ser extirpada de todos nós. E a resposta é tão ridícula que me fez rir por poucos segundos, o mesmo que valeu essa epifania.

Anos de erros e uma vida que balança entre pagar contas e esconder a fome dos demais me deixou descrente para momentos bons. Eles existem é claro mas a duração é preocupante. Afinal, quanto posso amolecer e não estar preparado para o próximo soco?

Vinho, maconha, música, lendo um texto bom (muito melhor do que essa pocilga aqui escrita) e em instantes a pele da mulher certa...

Quando voltar a dormir e a insônia for só uma lembrança vou reler isso aqui e tentar lembrar, sem sucesso algum, o que senti.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

XI - Jogo parte 1



Fernando passava pela rua fuçando a lixeira perto do bar Pôr do Sol, hoje era terça-feira e ainda não estava no horário certo para pedir dinheiro, cigarro ou bebidas. A maioria dos estudantes ainda não estavam bêbados ou socialistas o suficiente para tanto.

Encontrou um livro velho e uma caixa rasgada, ela estava cheia de cartas que pareciam baralhos. Tinham mais imagens ao contrário da chuva de corações (vermelhos ou pretos), balões e trevos e eram bonitas, diferentes, achou estranho que alguém jogasse fora algo assim. A imagem da mulher abrindo a boca de um leão deixou seu olhar sereno, era um detalhe que preencheu a fome do final do dia, para diminuir um pouco com a sede ao mirar os copos sendo virados um por um.

- Ei! Ô Bob! Quer uma cachaça?

As risadas em volta soavam diferentes. Não parecia que importavam tanto, a cachaça já não importava tanto mas responder aparentemente valia a pena.

- Tá falando comigo viadinho de merda?

O silêncio era ainda mais bonito do que o rosto deles. Ver o garoto finalmente entender que não era um homem era melhor ainda.

- Me dá essa porra de bebida aqui.

Tomou de um só gole.

- Bota outra.

Bebeu enquanto encarava a namoradinha assustada colada ao moleque. Os amigos não achavam que valia a pena fazer nada além de olhar e pedir a terceira dose antes que ele mesmo terminasse a segunda.

Bebeu a terceira dose, colocou o livro e a carta dentro de sua sacola e então saiu.

- Cuzão de merda. Playboyzinho do caralho.

terça-feira, 17 de maio de 2011

17 de maio

Tenho um problema sério para entender o mundo.

Anos atrás, quando eu tinha dificuldade para dormir, minha mãe deitava ao meu lado e dizia que monstros não existiam. Assim eu cochilava enquanto sentia suas mãos em meu cabelo e podia a ouvir sussurrar baixo que sempre me protegeria.

A mesma mulher estava chorando e me mandando embora de sua casa quando eu disse que estava apaixonado por outro homem. Até hoje fico pensando o porque pedi tantas desculpas. Porque insisti tanto em entender esse monstro a minha frente.

Entro em alguns clichês quando discuto com amigos. Aparentemente os gays são reis de seus lares. Sejam nossos bares, nossos encontros, nossas festas e nossas casas. Aqui reside o espaço permitido para sermos nós mesmos com quem quisermos nos envolver.

Acho engraçado quando ouço que todos somos promíscuos. Realmente existe algum problema nisso? Lógico que queremos nossas pegações, lógico que temos nossas Micarés também, lógico que uma hora isso também cansa e também nos apaixonamos por mais de um dia ao contrário do que discursam.

Imagine viver com medo. Imagine todos os dias colocar um sorriso no rosto o mais largo que você puder para encarar toda a hostilidade direta e indireta que recebemos. Imagine caminhar na rua ao lado da pessoa que você ama e não segurar suas mãos, não te permitirem olhar algo bonito e abraçá-la, sentir o quanto ela também te ama em uma conversa e ter que esperar chegar em casa para beijá-la!

Tenho um problema sério em entender o mundo que vocês pintaram como o seu.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

sexo oral

"Sexo oral é algo sujo. Ninguém deveria ser obriagado a fazer."

Qualquer pessoa que sinta nojo ao chupar quem estiver contigo na cama deveria apenas se masturbar. Ela não merece tocar outro ser humano.

"Conheci um cara que dizia odiar sexo oral. Ele dizia que fazer boquete era coisa de puta."

Provavelmente ele procurava suas "putas"por fora.

"Mas e o cheiro de uma mina incomoda?"

Por acaso você se preocupa com qualquer cheiro que não seja doença ou sujeira? Se você tiver incomodada é mais fácil voltar a ficar com caras. Não é a sua.

"Quem ama chupa."

Mentira! Quem gosta de fuder chupa.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Silêncio

O celular tocou perto das 21 horas e então Adriano resolveu desligar o aparelho. Ficou atento ao silêncio olhando para a casa, seus móveis, livros lido pela metade, peças de decoração que não tinha a menor ideia do porque adquiriu e a garrafa de Jack Daniels que comprou na feira dos importados.

Estava tomando o segundo copo com gelos peludos, daqueles que se funde ao ambiente de nevasca do freezer, quando notou o laptop apitando algum aviso de e-mail. Ato contínuo se aproximou do computador, parou e resolveu só encarar o aviso apitando como um sino estridente e irreal.

Computador desligado, celular desligado. Demorou aproximadamente dois dias para o telefone fixo tocar, achou engraçado imaginar que alguém ainda lembre esse número, apenas ouviu o trim espalhar pela casa até parar e então desconectou o aparelho.

O uísque já havia acabado e não tinha mais nenhum álcool dentro de casa. O cigarro ainda daria para um dia já que sem o álcool ele fumaria bem menos. Por um momento ele hesitou e quase ligou a televisão para tirar aquele silêncio de sua volta.

Amarrou a televisão em sua própria tomada e a deixou do lado de fora do apartamento, nenhum vizinho abriu a porta enquanto ele fazia isso, então voltou novamente para a mesa e acendeu mais um cigarro.

A comida acabou depois de uma semana. Agora a abstinência de cigarro e álcool era apenas uma memória ruim. Quando começou a falar consigo mesmo, rompendo o silêncio, mordeu com força a língua. O sangue e a dor fez ele rir por alguns instantes e então resolveu quebrar sua gilete.

Enquanto sentia o corpo frio e dormente ficou pensando no incrível volume de sangue que uma língua cortada poderia criar. Mas então um pouco antes de adormecer percebeu que realmente fazia sentido ao se lembrar do salmo de Mateus:

“Porque a boca fala do que está cheio o coração”