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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Organograma


Olho atentamente para o círculo em azul em volta do dia 31 de janeiro de 2013, hoje foi a data que marquei para morrer.

Faz exatamente três meses que pensei pela primeira vez em acabar com a minha vida. Olhando para trás vejo que a expectativa sobre as festas de final de ano fora demasiado pretensiosa. O mês de janeiro acabou e estou com a ferramenta necessária para acabar com todas as dúvidas.

Investir um pouco de dinheiro todo o mês para comprar uma Taurus calibre 38 talvez tenha sido meu único projeto bem sucedido. Irônico notar que entre pagar as contas, comprar meus remédios, uma prostituta e assistir dois filmes, existiu uma reserva para comprar a arma de um desconhecido que aumentou o valor na última semana.

A prostituta. Algumas pessoas acreditam realmente que suicidas são pessoas tristes, amarguradas e que provavelmente são carentes de amor em suas vidas. Não é o meu caso. Não tenho nenhuma tristeza, amargura e falta de amor acima da usual urbana. Decidi trepar com uma prostituta pelo simples motivo de saber como era trepar com uma antes de morrer. Simples assim.

Pensei se deveria escrever uma carta, mas mudei de ideia ao pegar a caneta. De que valeria deixar algo se ninguém leria? Realmente gostaria de meus esforços tão ridículos em um talento que jamais possuí fosse ainda mais medíocre sendo lido por um policial ou um legista? - “Deixo aqui... bla bla bla... o mundo é cruel... bla bla bla... Sou um derrotado! Deixa isso para lá, o que temos para almoço?” - Não, prefiro deixar apenas uma sujeira no chão e com sorte manchar uma barra de calça desses prestadores de serviço.

Coloco as seis balas dentro do revólver e sinto o seu peso em minha mão. É uma arma pequena, mas parece realmente poderosa. Uma pressão e tudo acaba. Não a toa que tantas pessoas são assassinadas todos os dias, o controle de uma vida no contrair de um dedo. É impressionante.

Abro a minha boca, sinto o ferro gelado de encontro com minha língua e sinto o bater suave nos meus dentes de baixo. Jurava que estaria trêmulo, mas acho que isso significa que estou realmente pronto. É como sempre me disseram que seria uma sessão de Yoga, estou em paz. Encontrei Buda dentro de minha boca.

Um pensamento engraçado passa por minha cabeça e não consigo evitar de sorrir. Será que sentirei o gosto da pólvora?

terça-feira, 10 de abril de 2012

Fissuras

Parece que algo rompe-se dentro de uma mulher cada vez que você a magoa. Um pequeno traço invisível e sutil demais para que seja tocado, efêmero demais para que você possa embalar em seus braços e tão denso que é capaz de sentir mesmo ao virar o rosto.

Algumas discussões podem ser as últimas, assim como bom dias.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

XI - Jogo parte 1



Fernando passava pela rua fuçando a lixeira perto do bar Pôr do Sol, hoje era terça-feira e ainda não estava no horário certo para pedir dinheiro, cigarro ou bebidas. A maioria dos estudantes ainda não estavam bêbados ou socialistas o suficiente para tanto.

Encontrou um livro velho e uma caixa rasgada, ela estava cheia de cartas que pareciam baralhos. Tinham mais imagens ao contrário da chuva de corações (vermelhos ou pretos), balões e trevos e eram bonitas, diferentes, achou estranho que alguém jogasse fora algo assim. A imagem da mulher abrindo a boca de um leão deixou seu olhar sereno, era um detalhe que preencheu a fome do final do dia, para diminuir um pouco com a sede ao mirar os copos sendo virados um por um.

- Ei! Ô Bob! Quer uma cachaça?

As risadas em volta soavam diferentes. Não parecia que importavam tanto, a cachaça já não importava tanto mas responder aparentemente valia a pena.

- Tá falando comigo viadinho de merda?

O silêncio era ainda mais bonito do que o rosto deles. Ver o garoto finalmente entender que não era um homem era melhor ainda.

- Me dá essa porra de bebida aqui.

Tomou de um só gole.

- Bota outra.

Bebeu enquanto encarava a namoradinha assustada colada ao moleque. Os amigos não achavam que valia a pena fazer nada além de olhar e pedir a terceira dose antes que ele mesmo terminasse a segunda.

Bebeu a terceira dose, colocou o livro e a carta dentro de sua sacola e então saiu.

- Cuzão de merda. Playboyzinho do caralho.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Silêncio

O celular tocou perto das 21 horas e então Adriano resolveu desligar o aparelho. Ficou atento ao silêncio olhando para a casa, seus móveis, livros lido pela metade, peças de decoração que não tinha a menor ideia do porque adquiriu e a garrafa de Jack Daniels que comprou na feira dos importados.

Estava tomando o segundo copo com gelos peludos, daqueles que se funde ao ambiente de nevasca do freezer, quando notou o laptop apitando algum aviso de e-mail. Ato contínuo se aproximou do computador, parou e resolveu só encarar o aviso apitando como um sino estridente e irreal.

Computador desligado, celular desligado. Demorou aproximadamente dois dias para o telefone fixo tocar, achou engraçado imaginar que alguém ainda lembre esse número, apenas ouviu o trim espalhar pela casa até parar e então desconectou o aparelho.

O uísque já havia acabado e não tinha mais nenhum álcool dentro de casa. O cigarro ainda daria para um dia já que sem o álcool ele fumaria bem menos. Por um momento ele hesitou e quase ligou a televisão para tirar aquele silêncio de sua volta.

Amarrou a televisão em sua própria tomada e a deixou do lado de fora do apartamento, nenhum vizinho abriu a porta enquanto ele fazia isso, então voltou novamente para a mesa e acendeu mais um cigarro.

A comida acabou depois de uma semana. Agora a abstinência de cigarro e álcool era apenas uma memória ruim. Quando começou a falar consigo mesmo, rompendo o silêncio, mordeu com força a língua. O sangue e a dor fez ele rir por alguns instantes e então resolveu quebrar sua gilete.

Enquanto sentia o corpo frio e dormente ficou pensando no incrível volume de sangue que uma língua cortada poderia criar. Mas então um pouco antes de adormecer percebeu que realmente fazia sentido ao se lembrar do salmo de Mateus:

“Porque a boca fala do que está cheio o coração”

terça-feira, 22 de março de 2011

Marquês de Sade

- Está passando uma peça do Sade na Funart esse final de semana.
- Aham.
- A gente poderia sair um pouco e curtir. Quanto tempo faz que não vamos ao teatro?
- Ah sei lá... uns dois meses?
- Vamos?

Acordamos cedo. Compramos os ingressos. Tomamos uma cerveja enquanto ouço ele me dizer o que leu sobre o Sadê. Tudo tão superficial e cheio de erros que aposto que pesquisou na Wikipédia uma hora após saber da peça.

- Está aí um cara que sabia o que realmente queria da vida. É isso mesmo. As pessoas deveriam fazer o que desejam, ser quem desejam.
- Acho que a peça vai começar daqui a pouco. Vamos indo?

Durante a peça noto um garoto sem graça. Inicialmente rindo, depois cruzando suas pernas e então indignado e torcendo o nariz. Suas mãos estão suadas quando segura as minhas e vamos até a carro.

- Ele era gay né?
- Acho que não.
- Como não? Você viu os caras naquela peça?
- Acho que ele era o sexo. Simples assim. Sem nenhuma barreira ou contextualização. Era exatamente o tesão que você sentiu ao ver duas mulheres se pegando e também o tesão em dois caras sendo enrabados por um toco de madeira de 30 centímetros. Ele era tudo isso cara.
- Mas você concorda com ele? Tipo... Você gostou dessa porcaria de peça?
- Gostei.

...

- Sério que você gostou da peça?
- André eu acabei de tomar um banho estou muito na pilha de ir dormir.
- Aquela mulher foi estuprada no final da peça. ES-TU-PRA-DA!
- Acho que aquela mulher foi estuprada várias vezes em sua vida e chamou isso de casamento. Acho que milhares de mulheres são estupradas todos os dias aos serem espancadas. Acho que todas as mulheres são estupradas todos os dias muito além do estupro.
- ...
- Aquilo foi um aviso. A vilania deveria ser aplicada sobre os vilões. É nessa constância do chocar que está a verdadeira obra do Sade. É sobre o quebrar conceito, destruir tabus, jogar em nossa cara o que todos consideramos feio e obsceno, para mostrar que espécie louca a instintiva nós somos e como todos os dias fugimos disso.
- Não sabia que você conhecia Sade.
- Você não me conhece André essa é a verdade. Boa noite.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Subversivo

Alguma coisa nessa palavra me deixa um gosto ácido abaixo de minha orelha, como uma pequena dormência que cria um aumento de minha excitação. É só olhar para um instante que permita descarregar toda essa aflição carregada em seu estômago por via de seu escroto.

De repente ouço pessoas conversando sobre povos antigos, sobre os mitos e o fato de cada um deles viver mesclado ao dia-a-dia de cada um deles. Era um período mais brando com o que era ou não real, talvez a realidade fosse mais fluída ou quem sabe as pessoas.

Comer é uma agonia que não sinto mais nenhum prazer, ao menos não desacompanhado, é um ingerir de um fraco combustível que não alimenta menos do que o esquecer o que foi deglutido durante a tarde ao final do dia. Praticamente uma bulimia moral.

Tento encontrar um foco, alguma ideia em números ou letras que me deixe apenas um pouco mais calmo dessa desarmonia, esse impulso que não cessa, essa excitação que não permite nem uma noite tranquila de sono além do suor esfriando o corpo.

Ao ver um filme que mostra uma máscara do que seria todo o investimento de ações e acordos bancários, não consigo deixar de pensar o quanto de juros continuo pagando por algo que não tenho culpa. Penso nas milhares de pessoas pagando suas contas sem sequer perceber o quanto disso não é correto ou pior... Simplesmente não se preocupam pelo gasto por possuir mais do que poderia ter para gastar.

Então chega um novo dia e seu corpo tenta te dizer que você não pode levantar ainda, que ele está cansado e precisa de mais algumas horas de sono e você começa uma idiota guerra a favor de seu despertador. Depois ainda criticamos o desenvolvimento de um câncer. Como qualquer organismo pode ser fiel a sua rotina? Impossível!

Aí eu fico pensando... Caralho! Sabe aquele filme de um bando de irlandeses, bebendo, se drogando, correndo, roubando e armando esquemas? Porra... Eles estão tanto com razão quanto qualquer outro que pense em pegar uma arma e ganhe seu lucro como queira. De que adianta fazer tudo certinho nessa porcaria de planeta?

Termine seu colégio, se forme, busque um estágio, tenha a porcaria de uma vida descente e por favor engravide e gere a nova prole para essa linda bola de vidro onde, com sorte, alguém vai mexer para que você enxergue um pouco de neve ou folhas caindo sobre você.

Melhor simplesmente fazer o que você queira antes que o tempo acabe. O problema é saber exatamente o que você quer. Seria consumir a maior quantidade de informações e entorpecentes que seu corpo aguente? Talvez o amor? Ah, sim... temos o amor não temos? Ele sim! Aquele que nunca acaba e nunca vai te trair também não é? Há há há. Tá ok!

Hum... confiar em você mesmo. Puta que pariu , isso sim é genial. Vamos apostar em nosso propósitos. No mesmo que apostam até em ilusões coletivas criadores de mundos e seres. Nas infalíveis escolhas de vida, emprego, caminhos a seguir e roupas em um armário.

Vamos confiar na amizade, naquele tão fudido e perdido quanto você que aparentemente concorda com meios de levar a vida em seu ritmo. Mas até aí nos tínhamos a linhas acima o amor em seu estado puro, enquanto não definha.

Podemos então acreditar que não precisamos acreditar em nada e simplesmente ser um animal civilizado que percebe que está acuado e então o melhor a fazer é não demonstrar muito isso em seu dia. Melhor guardar para gritar quando ninguém estiver te ouvindo ou buscar remedinhos que todo mundo toma e não faz mal né?

Afinal, amanhã surge de novo. Você se levanta, se encara no espelho e guarda todos os instintos dentro dessa máscara chamada ser humano.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Manuela em 24 horas

07:12

Acordada desde as seis. Corre para o banho, busca uma peça intima simples e um vestido leve de verão. Quando chega à produtora as maquiadoras já a cercam com conversa fiada e dicas.

- Hoje você vai entrar em cena com o Carlão não é? Meu deus, como você agüenta menina? Aquele homem é um trator.
- A festa vai ser que horas? Sério? Você vai estourar amor, tenho certeza.

08:20

Cena em uma sala. Um almoço que já está frio desde ontem, o copo de leite em cima da mesa cheira a azedo, está com um joelho apoiado sobre a mesa e o rosto rente ao copo. Carlos enfia freneticamente segurando com firmeza seus quadris. O ritmo é tão displicente que ela chega a divagar por alguns instantes.

- Corta. O que foi meu amor? Está aérea hoje?
- Não sei. Acabei me distraindo desculpa.
- Quer um pouco mais de lubrificante ou quer deixar para o anal?
- Não. Não precisa vamos continuar.

Mais alguns minutos de penetração e ela morde os lábios, olha para trás com uma cara safada e vai batendo de leve com a testa contra a mesa enquanto suas tetas balançam para frente e para trás ao ritmo de seus gemidos.

- Linda cena. Vamos partir para o gozo. Está pronto Carlos?
- Estou um pouco anestesiado. Preciso de mais um tempo.
- Tudo bem. Kátia!

Ela relaxa e fuma o seu cigarro enrolada em um roupão enquanto Kátia chupava generosamente os 23 centimetros de atuação de Carlos. E então em alguns minutos ele está pronto.

- Gravando.

O jato de porra cai quente sobre o rosto, desce rente aos cílios do olho esquerdo e cai em grossos jatos sobre seus lábios. Por mais que não precise engolir é impossível não sentir o gosto. Sempre desce um pouco pela garganta no final das contas.

- Perfeito. Corta!
- Você estava linda querida. Pode ir para o banho.
- Ótima cena Manuella. Parabéns.

11:27

Banho quente. Um pouco da sensação de dormência entre suas pernas e a água a deixa ainda mais sensível e inchada. Cansada ainda, não sabe o porquê essa foi tão difícil.

O olho esquerdo ficou bastante vermelho. Ela limpa e retira a pequena teia de porra em seus cílios, mas tende a teimar de sair. Após arrancar dois cílios junto com a goma Manuella sorri por trazer a sua memória o jogo dos desejos.

12:34

Almoço com a produção. Conversas sobre a nova cena, sobre o roteiro. O ator que acharia melhor trabalhar e os horários.

- Manu queremos uma dupla penetração anal nessa cena. O que você acha do Geraldo e o Cláudio? Não podemos usar o Carlos de novo e acho que pelo menos um deles seria mais tranqüilo.
- Querida você vai comer essa polenta?
- Aqui você vai masturbar os dois ok? E depois eles batem em sua cara com o pau. Punheta, Boquete e passamos para a cena da penetração tudo bem?
- Qual é o horário da sessão de fotos?
- Lembre que hoje à noite temos a reunião com o pessoal da Gringa.

14:50

- Querida acorda. Precisamos escolher a roupa.

Vestindo roupas para tirar aos poucos. Fotógrafo de pau duro sobre as calças. Proposta de trabalho fora dos estúdios. Promessas. Dinheiro. Valor. Recusas.

- Olha par esse lado. Isso querida assim! Me olha como se eu tivesse acabado de tirar meu pau para fora da calça. Assim... Isso. Linda!

16:30

Academia. Malhação. Conversa fiada. Paqueras. Como se tivesse tempo para encontros.

- Você fode tão bem quanto nos seus vídeos?

Atrasada para buscar o vestido para a festa.

21:30

Entra acompanhada com mais duas mulheres lindas. Uma com o silicone tão inchado que uma pequena veia parece estourada do lado esquerdo.

Beijando mulheres, apalpando e fazendo cara de uma boneca retardada. Pegando em pau de atores, repórteres, fotógrafos, sendo encoxada, encoxando e entrando para a festa. Mais fotos e a mesma seqüência de sempre.

- Meu Deus você é linda! Vi seu último filme, achei demais.

Olhares sempre voltados a boca, peitos e quadris. Alguns são mais sinceros e olham para a buceta como se pudessem enxergar além do vestido. Sim, é claro que está sem calcinha.

22:45

Muito álcool. Muita cocaína. Conversa fiada, papo sobre filmes, propostas, extra e oficiais e então o gringo chega.

Interprete para ouvir Amazing, Fucker, Hot, Brazilian Girls, Blowjob, Anal Sex.

Apenas continuar sorrindo. Olhar de boneca, modos afetados e encarar o volume da calça no momento certo.

23:59

Dentro de um carro com o rosto entre as pernas de um homem que não fala nada além do que ouve todos os dias, de todos os homens, não importando o idioma. Sim o contrato seria assinado. Ela seria uma estrela.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O machista

- Não te incomoda nem um pouco que eu te chame de machista?
- Claro que não.
- Juro que um dia eu vou entender por que homens assim persistem em existir.
- Para dizer o que todos os outros pensam.
- Você acha que todos os homens são idiotas?
- Não. Esse pensamento é uma constância da mágoa feminina. Eu acredito que todos os homens estão sendo fatalmente castrados.

...

- Nenhum homem mais pensa por si. Sempre sendo vítima dessa abominação, deste mundo feminino que estão criando a nossa volta. Igualdade, malditas peças e exposições, depilação a laser, academia para desenhar corpos, leis contra homofobia... Uma enorme armadilha para que castrem e domestiquem o homem.
- Domestique o homem? Isso é viver em sociedade. O que você gostaria era de uma dondoca que aceitasse esses absurdos.
- Da mesma forma que vocês.
- ...
- O que é o novo homem senão um desejo feminino? O que é esse novo homem é, senão uma dondoca para mulheres?
- Não é nada disso!
- Claro que é. Hoje as mulheres desaprenderam até como satisfazer um homem. Reclamaram a vida inteira daqueles que nunca se importaram com preliminares e hoje temos que implorar para receber a porcaria de um guloso mal feito. Não me surpreendo que existam tantos veados no mundo.
- Toda mulher verdadeiramente apaixonada, fará de tudo com prazer, para o homem que dividir sua vida.
- Assim como qualquer homem. Mas não é sobre isso que estamos discutindo ou é? Estamos falando desse universo presente, desses idiotas de cabelos e roupas alinhas, barbas rentes e toda a preocupação em dizer o que sente, ou, o que gostariam de ouvir que dissessem.
- Basta ter um cara que ouça o que uma mulher quer dizer, ouvir, ajudar, dividir...
- Para que? Confiam tão pouco assim em suas amigas? Não me importo em ouvir o que tenham para dizer. Mas pelo amor de deus... Sejam claras e objetivas. Não preciso de um prelúdio cada vez que ficou chateada com algo.
- Nossa... Isso exige tanto assim de você?
- É para isso que existem psicólogos, para que vocês possam contar o que pensam. Confesso que se eu recebesse para isso, seria mais paciente.
- Ha ha ha. Isso é tão típico... O machismo realmente está no ser impor.
- Claro, claro.
- Apenas gostaria de viver em um mundo que eu possa caminhar pela rua sem ser devorada por olhares, que parassem de me expor desse modo grosseiro.
- Você gostaria de viver em um mundo que mulheres não sejam vistas como um pedaço de carne? Não precisa sonhar com uma utopia. Fique gorda.
- Caralho! Não acredito que você disse isso. É exatamente isso que...
- Qual é? Você sabe que eu estou certo. Qual o maldito problema em ter homens querendo trepar com você? Gostaria que fosse o oposto? Duvido! Aí começaria o pensamento: - Gostaria de ser desejada por quem eu quero. - Perfeito meu amor, concordo com você. Eu adoraria uma linda ninfeta a você. Mas usamos as cartas que temos.
- Você é um babaca!
- Sou. Não tenho nenhum motivo para esconder isso. Sou um babaca, machista, homofóbico. Sou tudo isso e um pouco mais. E quero viver em um mundo que eu possa ser quem eu quiser. Não vou obrigar ninguém a me tolerar, ao contrário do que me empurram todos os dias em revistas, programas de televisão ou conversas em bar.
- Não acredito que eu dei para você.
- O pior não é ter dado para mim. O detalhe que deve estar incomodando sua cabecinha agora é que eu trepo bem.
- ...
- Ou vai dizer que estava fingindo agora? Na verdade não me importo. Fingiu bem o bastante pelo tempo que importou.
- ...
- Pode ir embora se quiser. E não se preocupe com a conta, claro que eu vou pagar, esse é outro pensamento que nenhuma de vocês gostaria que mudasse também.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Olho

O olho estava incomodando há algum tempo. Coçava para diabos e não parava de arder pela continua esfregação sem fim. Puxava o cílio para cima, deslizava os nós dos dedos na carne macia e vermelha rente ao globo e a agonia não cessava. De tanto mexer acabou por sentir algo quente e macio descer por seus canais lacrimais. Queria enxugar a lágrima e para sua surpresa era um verme que lhe cuspia o olho.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Nosso tempo

Somos criaturas covardes, estamos presos constantemente em duas instâncias que não deveriam nos atingir.

Temos medo pelo futuro. O pagar de contas, investir em alguém, do fracasso, hesitações, não ser bom o bastante, conseguir concluir seu curso a tempo, estar apto ao mercado de trabalho, ser demitido, crises que podem surgir, envelhecer e morrer.

Temos também medo do passado. O que não fizemos, falhar com seus pais, não estar a altura do que foi ensinado, escolhas erradas, pessoas que podem apontar suas falhas, erros, crenças, traumas, amores perdidos, paixões não existentes, livros não lidos, educação deturpada e nossas memórias.

Dificilmente estamos com nossos olhos fixos no presente. E essa falta de foco, essa permanência de olhar para trás ou sonhar com o amanhã é perder o único tempo que temos.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Hipercubo

Uma imagem no espelho congela o instante entre o piscar de olhos que não mais a enxerga. Essa instância é a incerteza que dispara o meu ritmo cardíaco e cria um suor em minha nuca, uma ilusão de medo em meus ombros após assistir um filme de terror sozinho e notar o silêncio gerado em um ambiente sem a luz da televisão ligada.

Estender a mão em frente ao espelho é receber uma cordialidade negada por todos de fora desse recinto dentro de outro, eternamente indo e voltando e tentando encarar em busca de uma identidade tão cara que precisa afirmar o que é real e não reflexo.

Tocar intimamente alguém é notar em sua linhas de sentidos um pouco do choque de retorno de quem é tocado. O calor, o arrepio dos pelos, o sabor do sal deitado em seu derreter de sentimentos, transbordar de dor deitando sobre sua face e o gozo líquido na ponta de sua lingua dividido entre o céu de sua boca e dentes, misturado em um mar de humores entre um músculo que gera sons, fala, e que divide o gozo como uma conversa. Uma conversa de criação de vida sem gerar vida alguma.

Esse Tesseraco de vidas é um retorno da proteína inicial, um detalhe de resgatar ao meio líquido de onde partimos e que com tanto receio a vivemos. Esquecemos ao mirar outro nos olhos que eles são gelatinosos por nos mostrar um reflexo menos nítido da composição da única conversa que vale comentários.

Somos prisioneiros de nossas limitações. De nossos medos. Os mesmos medos que poderia apenas admitir como individual, porque qualquer sintonia com o medo alheio é admitir sociedade e abrir mão dela e de sua própria existência dentro dela é a plena liberdade para a compreensão do ser que é visto e do que é você.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Mr. Hyde

Li ontem palavras de um cara que obviamente criticaria pelo o que disse a uma mulher. Um idiota que usava pessoas e as classificava com seus interesses no momento: seja o sexo casual, conversas soltas, discussões e até mesmo confidências.

Então por um segundo me senti culpado e no próximo me perguntei o porquê disso. O motivo, mais uma vez, foi pior do que a ação que o gerou. Um ego estúpido de ser o pior homem do mundo para uma mulher.

O que isso iria diminuir o fato de ter sido o melhor para outra? O que isso mudaria ter sido banal para uma terceira?

Se importar com o que deixa para trás é como glacê em um bolo de casamento. Doce demais para sentir algum sabor e ruim demais para o coração.

terça-feira, 7 de abril de 2009

olhando pela janela




Tenho odiado fins ultimamente
Vi um casal terminado hoje e chorei
Deveria chorar mais pelos meus

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Livre depressão

Corte fundo, deixe algo quente descer pintando o seu braço, estendendo o seu corpo além de seus pés, deixando-se diluir e finalmente estar livre de tudo que representa seus sentidos.

Esses que são tão errados quanto a linda mentira de paz e descanso negado por permitir apagar a luz que pertence a si mesmo.

Que os egoísta que você chama de amigos te blasfemem e sofram por ti. Eles não entenderiam do peso que está se livrando, da dor que jamais conseguiu contar a eles.

Não pense em deixar cartas de despedidas. Seria um óbvio contato para um auxílio que não faz mais diferença.

Corte fundo e deixe o calor apagar, aos poucos, junto com a sua dor.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Sensações

É solitário diante da presença de quem não se quer por perto. Quem dera se lembrar de algum momento que não estava angustiada diante do que julgava ser suas realizações e sonhos.

Estaria tão separada de seus caminhos? De suas escolhas? Ou sequer lembrava-se quem era antes ter escolhido o parceiro ideal para sua caminhada diante do que todos chamam destino?

A certeza era esse tremer de pernas e respiração ofegante diante das perguntas incessantes dos amigos e todo o novo grupo que teve que aprender a sorrir e tratar como iguais, por fazerem parte da vida de quem conheceu para viver sempre ao seu lado?

Poderia apenas viver com quem ama com a certeza ao sorrir e chorar ao olhar para os seus olhos. Deixar de lado esse medo tolo de estar encaixando alguém em sua vida por não ter uma própria.

As pessoas sorriem quando estão juntas. Por que não poderia sorrir como todos? Por que simplesmente chora todas as noites como uma idiota por ter dito simplesmente sim?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Censura

Fitas cortadas, fotos rasgadas, Hds apagados, e-mails deletados, cartas queimadas. Esses detalhes dão uma ilusão que finalmente pode apagar o pensamento de que aquela pessoa marcou e deixou rastros.

Quando se esforçar a lembrar a forma que seu corpo vibrava ao lado de uma pessoa que não é a que toca seus lábios hoje, será que o cortar de lembranças vão servir para algo?

Alguns temas serão seus tabus, seus medos, sua insegurança de viver em um mundo longe daquele que parece mais tranquilo. Talvez um mundo mais bonito e menos sujo, sem marcas, sem umidade, sem suor e gozo.

Censure, corte, omite, finja e vai caminhando para o chuveiro fantasiando entre o cair de uma água morna entre suas pernas que você sabe o que realmente é calor.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Frase

"O problema de pensar em que seus pais deveriam morrer é que um dia eles morrem."

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Arritmia

A anfetamina não meu deixou dormir direito. Rolei de um lado para o outro da cama, coração disparado e suando em bicas.

"Culpa da anfetamina. Já tomei dois banhos. Relaxe, tente dormir."

Lembro de virar o copo com o café gelado e olhar a expressão congelada do não no rosto a minha frente.

"Putz cara... Você bebeu minha poção."

"O que tinha aqui dentro?"

A noite insone. O virar para os lados, o lembrar da porcaria da conversa que não some de jeito nenhum.

"Me liga amanhã."

Já são meio-dia. Meu telefone não liga, nenhuma Lan aberta, não posso comprar um cartão e tão pouco ligar a cobrar.

"Você é furão demais cara. Isso enche o saco."

Fico pensando, juntando as peças. Isso foi de propósito. Sabe que não teria como ligar, eu havia dito. Por que pediu?

"Nós estragamos tudo."

Concordo. Um dia comendo, lendo, malhando e vendo televisão me mostra que estou inquieto, irritado, incomodado. Não posso criar relacionamentos. Não seria fiel em nenhum parâmetro.

"Você me pediu em casamento bêbado. Se eu tivesse aceitado o que diria? Que foi um erro?"

Quarenta flexões, setenta abdominais, trinta barras e mesmo dolorido não consigo esquecer o cheiro, a textura e o desespero de não sentir seu gosto a quase um mês.

Deve ser culpa minha. Eu afasto propositalmente quem é importante de verdade. Preciso sofrer. Esse é o grande mistério. Sofrer para não assumir.

"Não deveria deixar os rastros das pessoas com quem você dorme. Acha que isso não me incomoda?"

É a anfetamina. Ela não me deixa parar de pensar. Me deixa com sede e faz linhas surgirem e sendo enviadas antes de serem lidas.

"Nós estragamos tudo."

...

"Exatamente."

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Pensamentos sombrios

Gostaria de ter a certeza de algo pior que esse mundo,
talvez assim, se matar seria um ato covarde.