segunda-feira, 7 de junho de 2010

Manuela em 24 horas

07:12

Acordada desde as seis. Corre para o banho, busca uma peça intima simples e um vestido leve de verão. Quando chega à produtora as maquiadoras já a cercam com conversa fiada e dicas.

- Hoje você vai entrar em cena com o Carlão não é? Meu deus, como você agüenta menina? Aquele homem é um trator.
- A festa vai ser que horas? Sério? Você vai estourar amor, tenho certeza.

08:20

Cena em uma sala. Um almoço que já está frio desde ontem, o copo de leite em cima da mesa cheira a azedo, está com um joelho apoiado sobre a mesa e o rosto rente ao copo. Carlos enfia freneticamente segurando com firmeza seus quadris. O ritmo é tão displicente que ela chega a divagar por alguns instantes.

- Corta. O que foi meu amor? Está aérea hoje?
- Não sei. Acabei me distraindo desculpa.
- Quer um pouco mais de lubrificante ou quer deixar para o anal?
- Não. Não precisa vamos continuar.

Mais alguns minutos de penetração e ela morde os lábios, olha para trás com uma cara safada e vai batendo de leve com a testa contra a mesa enquanto suas tetas balançam para frente e para trás ao ritmo de seus gemidos.

- Linda cena. Vamos partir para o gozo. Está pronto Carlos?
- Estou um pouco anestesiado. Preciso de mais um tempo.
- Tudo bem. Kátia!

Ela relaxa e fuma o seu cigarro enrolada em um roupão enquanto Kátia chupava generosamente os 23 centimetros de atuação de Carlos. E então em alguns minutos ele está pronto.

- Gravando.

O jato de porra cai quente sobre o rosto, desce rente aos cílios do olho esquerdo e cai em grossos jatos sobre seus lábios. Por mais que não precise engolir é impossível não sentir o gosto. Sempre desce um pouco pela garganta no final das contas.

- Perfeito. Corta!
- Você estava linda querida. Pode ir para o banho.
- Ótima cena Manuella. Parabéns.

11:27

Banho quente. Um pouco da sensação de dormência entre suas pernas e a água a deixa ainda mais sensível e inchada. Cansada ainda, não sabe o porquê essa foi tão difícil.

O olho esquerdo ficou bastante vermelho. Ela limpa e retira a pequena teia de porra em seus cílios, mas tende a teimar de sair. Após arrancar dois cílios junto com a goma Manuella sorri por trazer a sua memória o jogo dos desejos.

12:34

Almoço com a produção. Conversas sobre a nova cena, sobre o roteiro. O ator que acharia melhor trabalhar e os horários.

- Manu queremos uma dupla penetração anal nessa cena. O que você acha do Geraldo e o Cláudio? Não podemos usar o Carlos de novo e acho que pelo menos um deles seria mais tranqüilo.
- Querida você vai comer essa polenta?
- Aqui você vai masturbar os dois ok? E depois eles batem em sua cara com o pau. Punheta, Boquete e passamos para a cena da penetração tudo bem?
- Qual é o horário da sessão de fotos?
- Lembre que hoje à noite temos a reunião com o pessoal da Gringa.

14:50

- Querida acorda. Precisamos escolher a roupa.

Vestindo roupas para tirar aos poucos. Fotógrafo de pau duro sobre as calças. Proposta de trabalho fora dos estúdios. Promessas. Dinheiro. Valor. Recusas.

- Olha par esse lado. Isso querida assim! Me olha como se eu tivesse acabado de tirar meu pau para fora da calça. Assim... Isso. Linda!

16:30

Academia. Malhação. Conversa fiada. Paqueras. Como se tivesse tempo para encontros.

- Você fode tão bem quanto nos seus vídeos?

Atrasada para buscar o vestido para a festa.

21:30

Entra acompanhada com mais duas mulheres lindas. Uma com o silicone tão inchado que uma pequena veia parece estourada do lado esquerdo.

Beijando mulheres, apalpando e fazendo cara de uma boneca retardada. Pegando em pau de atores, repórteres, fotógrafos, sendo encoxada, encoxando e entrando para a festa. Mais fotos e a mesma seqüência de sempre.

- Meu Deus você é linda! Vi seu último filme, achei demais.

Olhares sempre voltados a boca, peitos e quadris. Alguns são mais sinceros e olham para a buceta como se pudessem enxergar além do vestido. Sim, é claro que está sem calcinha.

22:45

Muito álcool. Muita cocaína. Conversa fiada, papo sobre filmes, propostas, extra e oficiais e então o gringo chega.

Interprete para ouvir Amazing, Fucker, Hot, Brazilian Girls, Blowjob, Anal Sex.

Apenas continuar sorrindo. Olhar de boneca, modos afetados e encarar o volume da calça no momento certo.

23:59

Dentro de um carro com o rosto entre as pernas de um homem que não fala nada além do que ouve todos os dias, de todos os homens, não importando o idioma. Sim o contrato seria assinado. Ela seria uma estrela.

domingo, 6 de junho de 2010

Efêmero

- Você vai me dizer o que está acontecendo?
- Cansada disso. Exausta de não confiar, de suas desculpas, conversas.
Simplesmente... Não suporto mais.
- Nós já conversamos sobre isso.
- VOCÊ! Você conversou sobre isso Cadú! Você me pede desculpas e quase sempre parece sincero.
- Amor...
- Ok, você é sincero. Eu sei! Mas nunca muda. Cansei de por do sol.
- ...
- Você é lindo Cadú, te amo. Mas você nunca dura mais do que instantes.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Viagens de negócio

Aquele cheiro de aeroporto ainda estava nas roupas de Andréia e tentava manter um sorriso ao engolir o seu Havanna com café, só no campo de viagens internacionais ela conseguia encontrar o seu alfajor favorito, vendo pessoas se despedindo e outras sendo recebidas entre lágrimas e sorrisos.

Já estava ficando cansada de levar Fernando todas as semanas para suas viagens. O trajeto, seja de madrugada ou no final da tarde, já estava cansado e deixando de ser uma novidade emocionada com aquele sorriso dizendo de modo tão doce que voltaria em breve.

Hoje ela enrolou um pouco mais pelo aeroporto. Via as aeronaves decolando com suas cadeiras justas e uma janela para o por do sol entre nuves com sorriso que era todo o sol para ela.

Percebeu que estava com o rosto úmido de saudades no primeiro dia. E sorrindo notou que não era o primeiro dia. Essas viagens já se arrastavam a alguns meses. Cada uma mais longa que a outra, deixando uma casa vazia de seus toques, sorriso, conversas e o peito disparado que deitava seu rosto vermelha e satisfeita.

- Senhorita tem horas?
- São quase seis da tarde. Quinze para as seis.
- Obrigado.
- De nada.
- Sua cidade é muito bonita sabia? Minha esposa gostaria de olhar esse céu. Vocês são privilegiados.
- Somos mesmo.
- Você está bem?
- Estou sim. Só estou com saudades.
- Tenho uma senhora muito bonita em casa. A única coisa que me faz lembrar a cidade onde estou é quando coloco os olhos nela. Aposto que ele também sabe disso mocinha.

Recebo um beijo na minha testa que trás de volta um pouco esse disparar de meu peito. Esse senhor, esse pai instantâneo, me fez olhar de novo o por do sol de Brasília.

O mais bonito dessa cidade é você meu amor.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Conversa de bar VIII

- Trás mais uma cerveja aí colega. Tem um salzinho? Só para descer essa mandioca insossa aqui.
- Todo engraçadinho esse Zé Eduardo. Só querendo ser o carioca.
- Só querendo ser? Qual é?!
- Re re.

Joguinho fuleiro do Flamengo a cerveja está estupidamente gelada pelo menos. Acaba com quase um empate e então a conversa volta ao ritmo normal no intervalo.

- Acho que o Dunga fez certo de não levar o Neymar. Muito novo.
- Mas qual o problema da idade?
- Ah, sei lá. Sabe é muito garoto. Menino e tals. Imagina se vai para copa do mundo e fica se achando.
- E o que é melhor? Ficar se achando em um time europeu?
- ...
- O que o Dunga esqueceu é que no tempo dele um jogador era exportado com 25 ou 30 anos para jogar fora. Ele se aposentou no Inter, após um chapéu de um moleque chamado Ronaldinho Gaúcho. Não é como essa nova leva de exportação aos 17 anos, como Robinho, Pato e daqui a pouco o Neymar e o Ganso.
- Verdade.
- Sério! Esses garotos de hoje tem mais é que usar toda e qualquer chance de poder jogar no Brasil. Jogar para o Brasil! Não me importo do cara barbarizar na copa do mundo e se achar um monstro do futebol. Que seja! Mas porra, vai lá e seja um monstro com a camiseta amarelinha! Por que é para um monte de fudidos que pegam um metrô lotado depois do trabalho e encher esse Maracanã é que esses milionários de chuteiras estão jogando.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Anulado

Eram que horas quando tudo ficou opaco? Olhando em volta noto que tudo perdeu os tons. Era como se de repente as paletas de cores jamais existira. Estou encarando um mundo de formas onde a própria definição de volume se perde na transparência.

Já pensou em caminhar sem saber exatamente a distância? Eu posso te assegurar que antes dera ser cego e ter em minha compensação os demais sentidos como guia.

Sim meu senhor! Peço desculpa ao leitor por não deixar claro. Mas não foram somente as cores, e com elas os tons de xinza, que esvanecera. Com elas sumira também o som, calor, frio, textura, odor, sabor... Sumiu por completo e teimo em dizer que não irão voltar.

Notando bem não havia animais, plantas, nem sequer nuvens ou sol, ou seria noite? Nesse caso não havia também lua ou estrelas. Apenas um espaço não definido... minto! Um espaço desenhado com nossas construções, alicerces, objetos e divisórias.

Parei de prestar atenção ao notar uma turba passar disparada pela rua abaixo. Muitos caindo e levantando, outros esbarrando e outros tantos não se importando, ditando no silêncio o alto tom de bocarras abertas. Todos eles seguiam para o que um dia foi um museu e ali entendi que era para onde deveria ir.

Grupos desesperados com lágrimas sem sal ou calor encaravam as formas no que deveria ser pedras metal e madeira em formas, esculturas como dizíamos antes, deitavam seus olhares como uma prece nas fotografias, nos quadros e nas montagens. Era como se as obras fossem um útimo resquício de vida distribuída pelo mundo.

Cansado dos olhares dos desesperados me atirei de volta as ruas, essas espaçadas e de carros parados com placas e sinais que não tinham mais sentidos.
Percebi então uma criança sentada com um bloco de peças em seu colo, tão concentrada em seu trabalho que conseguiu prender minha atenção além das obras e aqueles olhares religiosos voltados a elas.

A criança construia uma espécie de torre, ou me pareceu uma, com pedaços de caixas de fósforos, sapatos e embalagens de produtos. Ao final dessa obra ela esboçou um sorriso e deixou seu produto enquanto recolhia coisas deixadas para trás pelos demais. Placas, bolsas, cigarros, telefones, chápeus e todo o resto.

Fiquei ali olhando a pequena construção e a criança que se distanciava com pequenas tranqueiras em suas mãos. Olhando acabei por sorrir ao lembrar das pessoas no museu. Uma gargalhada, sem nenhum som, saía de mim me fazendo chorar de tanto rir criando câimbras em meu ventre ao notar a semelhança absurda com o mito da caverna.