terça-feira, 10 de novembro de 2009

O menino no sapato

Meu nome é Eriberto e hoje ao contrário de todos os dias eu percebi ao tentar calçar meu sapato que algo estava dentro dele. Algo macio e quente que gritou quando pus meu pé.

- Ai! Não olha onde poem o pé não?

Era um menino dentro do meu sapato. Ele era parecido com todos os outros garotos de minha escola. Tirando o seu tamanho.

- Desculpa. Não tinha visto você aí dentro.
- Desculpa... Você quase me esmaga e tudo que pede é desculpas?
- Você está machucado?
- Minha cabeça está doendo um pouco. Tem um turbante?
- Turbante?

Ele pulou para fora do sapato e andou em círculos com as mãozinhas para trás das costas.

- Um turbante. Como ele não pode saber o que é um turbante? Todo mundo sabe o que é um turbante. É um desperdício de diálogo, sem contar uma falta tremenda de educação, machucar alguém e nem sequer oferecer um turbante a ela.
- Desculpa. É que eu nunca ouvi falar de um turbante.
- Claro que nunca ouviu falar de um turbante. Turbante é algo que fica sobre a sua cabeça, que mantêm suas ideias circulando tempo suficiente para que possa escolher uma boa antes de soltar. Francamente...
- Mas o que isso tem haver com seu machucado?

Ele deu dois pulos e coçou a cabeça bastante nervoso.

- Você achatou minhas ideias! Sem um turbante elas ficaram tão finas que podem sair correndo de meu ouvido por todo o quarto. Agora me traga logo um turbante.

Ele teve que me mostrar como se fazia um turbante. Acabei pegando uma gaze e enrolei em sua cabeça. Colocamos um alfinete pequeno na frente para prender. Ele olhou no espelho e pareceu satisfeito.

- Tá. Não é exatamente um rubi mas pode servir por enquanto.
- O que você estava fazendo em meu sapato?
- Ele estava começando a ficar apertado em você e bem sei que garotos não levam a sério suas vestimentas. Sempre comprando coisas novas só por não caberem mais nelas.
- Mas todo mundo cresce.
- Todo mundo não. Só aqueles que gostam de desperdiçar as coisas. Eu nunca cresci e assim tudo que eu uso me serve para sempre.
- Você só tem essa roupa?

Então o menino deu um voleio e se apresentou como um ator de teatro.

- E para que eu precisaria de mais roupas? As pessoas mudam suas roupas porque precisam parecer aqueles bonecos atrás dos vidros. Você gosta de parecer um boneco?
- Não.
- Olhe para mim. Todos que me vêem sabem que uso calça vermelha, uma linda blusa verde com missangas, cordões de couro no pulso e essas sandálias de couro de rato. Sou minhas roupas!
- Você é estranho.

Ele sentou no chão e cruzou as pernas uma sobre a outra como um biscoito.

- Então devo me apresentar. Meu nome é Cyria Multiplisorridevanenoturno.

continua...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

sopıʇuǝs snǝɯ

oʇɐʇ ǝp oãçou ɐɥuıɯ ɹɐıןɐʌɐǝɹ zɐɟ ǝɯ êɔoʌ

O Mistério do Samba



Essa cena termina com um olhar voltado para o passado. Onde essas mulheres foram? O que estavam tocando em suas memórias? Que documentário lindo.

Assista sem restrição.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Detetive ao som de Pagode (parte final)



Eram duas da tarde. A garrafa de conhaque barato estava quase no fim e meus olhos estavam vermelhos, tanto pelo álcool, como pela noite em claro. Esperei dar dez da matina para ligar para a dona. Quando terminei de virar o copo ela bateu na porta.

- O senhor disse que tinha respostas para mim.

Taquei as fotos em cima da mesa. Lá ela poderia ver o garoto se agarrando a outras bichinhas, o ambiente onde vários outros estavam se pegando e ela folheou com uma certa naturalidade, menos chocada do que eu imaginava.

- Já sabia não é?
- Bem... Na verdade.
- Para de drama. Novela eu parei de assistir desde que a Maitê ganhou rugas. Por que me mandou para um caso tão óbvio assim?
- Eu...
- Queria saber se o moleque era uma fruta? Ele é! Queria saber se curte um bigodinho de leite? Ele curte! Esse morde fronha nasceu ao avesso madame. É um viado!

Ela fez uma expressão de chocada e levou as mãos ao rosto após me enfiar a mão na cara. Peguei ela pelo cotovelo.

- O que você queria? Qual a diferença se esse merdinha ganha a grana ou não? Tú está com o pão ganho. Deitar com o ricaço te deu a herança e aposto que é o bastante para financiar as frescuras de vocês dois.
- Você não entende! Eu tinha que ter certeza! Eu tinha que saber!

Ela caiu em prantos. Lágrimas rolando sujando a maquiagem cara, dando um aspecto assustador e mostrando sua idade por debaixo das rugas. Ali tudo ficou claro, a ficha finalmente caiu. Acendi a porcaria do cigarro e deixei a nicotinha ajudar o raciocínio.

- Era ele não era? O amor da sua vida era um viadinho com o rabicó apontado para a lua.

Sua expressão de ódio e tristeza era todo o sim que precisava.

- É madame. Quanto mais perto do avião mais frouxo. Um homem que perde a vida trabalhando para deixar uma herança e não leva o único filho homem a um puteiro, jamais deixou algo do que se orgulhar.
- Eu... Eu simplesmente...
- As fotos e passagens ficaram em mais duzentinhos. Se quiser um psicólogo é no terceiro andar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009