quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Questão de gosto

- Pensei que essa festa chata nunca ia acabar.
- Você é linda.
- Hum... Valeu a pena mesmo vir correndo para cá.
- Aham. Quer uma cerveja?
- Quero sim. Ah, você ainda tá ficando com a Nati?
- O quê?
- Com a Nati. Você ainda tá ficando com ela?
- Não. Acabou faz um tempão. Toma aqui sua cerva.
- Obrigada. Nossa tá bem mais gelada que aquelas do show.
- Brasília tá foda. Cerveja quente em qualquer lugar.
- Nossa você é gostoso demais! Dá vontade de te morder. Re re re.
- Quer indo pro quarto?
- Te fodo aqui mesmo garoto.
- Você é incrível.
- Bota um som?
- Aham. O que você quer ouvir? Tem de tudo aqui, menos aquela merda de Ramones.
- Como é?
- Tenho de tudo...
- Não, não... O que você disse do Ramones?
- Ah, qual é... Tú curte aquela merda?
- Puts velho... Qual é a sua broder? Merda?! O que você sabe sobre Ramones?
- Pô só não curto muito. Mas relaxa, vou colocar aqui no Youtube e...
- Não sem essa! O que Ramones tem de ruim para tú não curtir eles?
- Olha. Se eu colocar e você cair de boca eu já começo a curtir.
- Aff... Falou babaca. Sabia que a Nati estava perdendo tempo contigo mesmo.
- Ow, ow... Caralho... Que banda fudida da porra!


(texto em homenagem a todos que curtem essa banda fuleira e chamo de amigos)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Os enamorados

- Já prestou atenção na carta dos enamorados do Tarot? Existe uma tensão no ambiente, com a presença de um terceiro optando por ajudar ou balancear a escolha do casal em questão.
- É um anjo não é?
- Poderia ser um anjo ou qualquer outra coisa. Mas a simples ideia de existir alguém já me incomoda.
- Mas tem algo haver com o principio do equilíbrio é por isso que precisa existir uma balança.
- Uma balança assexuada? Devo começar a minha vida a dois baseada na escolha de um anjo?
- Há há há.
- É a nítida imagem de Miguel expulsando Adão e Eva do Éden. Não parece um começo promissor. Soa muito mais como um casamento forçado, te expulsando para Nod longe da vida de solteira.
- Você é uma figura!
- Estou dizendo. A carta dos enamorados é o reflexo do péssimo relacionamento e não toda a baboseira de livre arbítrio, escolha, harmonização de postos , prova ou casal como dizem.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Subversivo

Alguma coisa nessa palavra me deixa um gosto ácido abaixo de minha orelha, como uma pequena dormência que cria um aumento de minha excitação. É só olhar para um instante que permita descarregar toda essa aflição carregada em seu estômago por via de seu escroto.

De repente ouço pessoas conversando sobre povos antigos, sobre os mitos e o fato de cada um deles viver mesclado ao dia-a-dia de cada um deles. Era um período mais brando com o que era ou não real, talvez a realidade fosse mais fluída ou quem sabe as pessoas.

Comer é uma agonia que não sinto mais nenhum prazer, ao menos não desacompanhado, é um ingerir de um fraco combustível que não alimenta menos do que o esquecer o que foi deglutido durante a tarde ao final do dia. Praticamente uma bulimia moral.

Tento encontrar um foco, alguma ideia em números ou letras que me deixe apenas um pouco mais calmo dessa desarmonia, esse impulso que não cessa, essa excitação que não permite nem uma noite tranquila de sono além do suor esfriando o corpo.

Ao ver um filme que mostra uma máscara do que seria todo o investimento de ações e acordos bancários, não consigo deixar de pensar o quanto de juros continuo pagando por algo que não tenho culpa. Penso nas milhares de pessoas pagando suas contas sem sequer perceber o quanto disso não é correto ou pior... Simplesmente não se preocupam pelo gasto por possuir mais do que poderia ter para gastar.

Então chega um novo dia e seu corpo tenta te dizer que você não pode levantar ainda, que ele está cansado e precisa de mais algumas horas de sono e você começa uma idiota guerra a favor de seu despertador. Depois ainda criticamos o desenvolvimento de um câncer. Como qualquer organismo pode ser fiel a sua rotina? Impossível!

Aí eu fico pensando... Caralho! Sabe aquele filme de um bando de irlandeses, bebendo, se drogando, correndo, roubando e armando esquemas? Porra... Eles estão tanto com razão quanto qualquer outro que pense em pegar uma arma e ganhe seu lucro como queira. De que adianta fazer tudo certinho nessa porcaria de planeta?

Termine seu colégio, se forme, busque um estágio, tenha a porcaria de uma vida descente e por favor engravide e gere a nova prole para essa linda bola de vidro onde, com sorte, alguém vai mexer para que você enxergue um pouco de neve ou folhas caindo sobre você.

Melhor simplesmente fazer o que você queira antes que o tempo acabe. O problema é saber exatamente o que você quer. Seria consumir a maior quantidade de informações e entorpecentes que seu corpo aguente? Talvez o amor? Ah, sim... temos o amor não temos? Ele sim! Aquele que nunca acaba e nunca vai te trair também não é? Há há há. Tá ok!

Hum... confiar em você mesmo. Puta que pariu , isso sim é genial. Vamos apostar em nosso propósitos. No mesmo que apostam até em ilusões coletivas criadores de mundos e seres. Nas infalíveis escolhas de vida, emprego, caminhos a seguir e roupas em um armário.

Vamos confiar na amizade, naquele tão fudido e perdido quanto você que aparentemente concorda com meios de levar a vida em seu ritmo. Mas até aí nos tínhamos a linhas acima o amor em seu estado puro, enquanto não definha.

Podemos então acreditar que não precisamos acreditar em nada e simplesmente ser um animal civilizado que percebe que está acuado e então o melhor a fazer é não demonstrar muito isso em seu dia. Melhor guardar para gritar quando ninguém estiver te ouvindo ou buscar remedinhos que todo mundo toma e não faz mal né?

Afinal, amanhã surge de novo. Você se levanta, se encara no espelho e guarda todos os instintos dentro dessa máscara chamada ser humano.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Soro

- Me pergunta de novo sobre fome.
- Fica quieto, a enfermeira já disse que vem.
- Não, não chamei enfermeira alguma. Vem aqui! Aqui embaixo... Quero você!
- Você é louco!
- Me bebe.

Loucura ou não. Ela chupou, bebeu e disse a enfermeira que já estava indo embora e para não esquecer de trocar o soro.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Brigadeiro e música

Nadir estava com a colher de brigadeiro ainda presa pelos dentes enquanto procurava dar o play no som. A bateria era tão fraca e ela tinha comido tantas colheres que nem sabia se a onda tinha começado ou se era hora de trocar de controle ou quem sabe de som.

- Por que diabos a gente inventou de comer isso mesmo?
- Você disse que queria ficar doida não foi? Ainda estou para conhecer uma forma melhor de bater do que comendo.
- Mas agora fiquei com vontade de fumar. Quero um pouco de fumaça ou pelo menos alguma outra coisa...
- O que você tá fazendo com esse controle?

A primeira crise de riso começou nessa hora.

- Acho que estou tentando trocar a música. O que estamos ouvindo?
- Tom Waits... Acho.
- Tá. Eu gosto, não conhecia.
- A gente ouvia quando estava ficando.
- É?

Marina ficou sem graça e era ainda mais bonita quando estava irritada ou sem graça.

- Você está ficando com alguém?
- Para quê?
- Sei lá... Por que estou perguntando? Ou por que ficar com alguém?
- Não sei. Me dá um pouco do brigadeiro?
- Você não respondeu.
- Acho que quero um pouco de vinho.
- Passa um café para gente?
- Café?
- É que ainda estou com vontade de fumar.

A taça de vinho estava manchando a toalha e a mesa, mas a atenção de Marina era na xícara com uma fumaça indo de encontro aos lábios de Nadir.

- Fiquei com a Dri na semana retrasada.
- Quem?
- Dri. A amiga da Fabiana.
- Por que você tá me falando isso?
- Você me perguntou se eu estava ficando...
- Ah, tá! Com a Dri é? Ela é bem estranha... Não gosto dessa menina!

Ela senta ao lado de Marina, deixando a coxa bem próxima do joelho levantando um pouco mais ao vestido. Ou apenas estava distraída talvez.

- Você merece uma pessoa legal e não essas chatinhas cheias de paranoias. Você é bonita, beija bem e mega engraçada. Pelo menos quando se esforça um pouco.
- Eu me esforço um pouco toda manhã.

Nessa segunda crise de riso Marina deixa seu olhar prender um pouco mais no sorriso. Aqueles exatos segundos a mais que fazem perceber que você está bancando a idiota.

- Ah, Nina... Nossa ainda tenho tanto tesão por você sabia?
- Só quando tá alta...
- Quê?
- Me dá um beijo?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Eleições Brasilienses

- E por quê você vai votar na Marina?
- Pelo mesmo motivo da semana passada.

Já estava cansado de toda a vez ser a mesma discussão a mesa. Cada dia mais próximo das eleições parece que só tinham um assunto. E era praticamente impossível tentar beber acompanhado sem ter que responder a esse Vox Populi.


- Isso é um desperdício de voto. Você sabe muito bem que ela não vai ganhar.
- Mas não é para ela ganhar. Quero uma repercussão, quero um porcentual, estou votando em uma ideia.
- Mas ela não vai incomodar a Dilma. A Dilma vai ganhar no primeiro turno.
- E o que eu tenho com isso? Não sou eu que vou ganhar um cargo em algum escritório para um serviço burocrata qualquer que vá durar quatro anos. Na verdade você não deve estar tão seguro da vitória se precisa tanto de um voto.

Ali foi o ponto que a conversa fechou, os presidenciáveis já estavam fora do debate e então duas cervejas vieram e consegui até mesmo beliscar um pedaço de fígado com jiló antes de voltarem ao tema.

- Mas para governador você vai votar no Agnelo não vai?
- Mas que caralho... Não sei ainda. Talvez.
- Como assim, talvez?! Você vai deixar aquele bandido do Roriz ganhar?
- Eu?! Caso ele seja eleito, será o TSE, todo o curral eleitoral juntamente com essa classe média privilegiada que o elegeu. Eu não vou votar nele. E agora que você tá me enchendo o saco com essa conversa é que estou pensando seriamente em nem votar mais no Agnelo também!
- Mas como assim?
- Primeiro que não considero o Agnelo uma excelente opção. Sem contar a merda do seu vice.
- Mas você tem que escolher alguém com uma intenção de voto que faça diferença.

- Porra para de ser pentelho! Tô aqui querendo beber uma cerveja sem essa boca de urna do meu lado. Já escolhi os meus votos e não preciso de nenhum petista desesperado para ficar me xaropando. Vocês são piores que os crentes!

Alguém solta uma gargalhada em outra mesa.

- Decidi. Só de raiva não mais votar no Agnelo. Agora você vai poder voltar para casa pensando que ao ajudar a conscientização do povo alienado brasiliense acabou perdendo um voto por puro pedantismo. Mas pode ficar tranquilo porque graças ao Cristovam, vou clicar um 12 na urna tá?


Vencido o militante sai com ares de quem não pode convencer alguém sem visão e interesse político. E finalmente posso usufruir da minha porção de fígado com uma cerveja estupidamente gelada para escapar da seca cruel de Brasília.

domingo, 12 de setembro de 2010

Pescaria

Fiquei parte dessa noite pensando um pouco no cheiro da maresia nas pedras da praia do flamengo. Junto delas um garoto com seus seis anos estava aprendendo a pescar tão empolgado que deixou a isca cair duas vezes em meio ao bater de espumas brancas atraindo ainda alguns poucos peixes que em breve iriam encher um balde.

A linha era transparente e um pouco mais grossas das usadas para empinar pipas, pequenos sonhos feito de papel de seda e rabiola de jornal velho picotado, que parecem subir mais por conta de quem a segurou para você do que por sua própria corrida descalço de olhar firme para o sol.

Engraçado o modo como a vara ia se inclinando junto do ir e vir do mar, fazendo pequenos riscos cortando o azul de um lado para o outro, parecido demais com um ombro ao seu lado cantando um samba antigo que ainda não entende por inteiro, mas que faz uma criança não perceber o passar do tempo.

Quando a linha puxa é como encontrar um doce em cima de sua cama, uma revista na sala, como mãos nodosas te apertando forte... é um pouco de sentir seu coração disparado de felicidade ao notar que cada passo foi feito certo.

O peixe salta da água e balança com um prateado que só perde para os cabelos do homem que segura suas mãos para te ajudar a não cortar o dedo no anzol.

- Olha Vô! Olha o lindo peixe que eu peguei! Nossa ele é enorme! Vamos comer ele hoje, vamos?

O homem sorri e com a mesma calma apenas coloca outra isca e deixa o peixe no balde.

- Vamos comer sim. Mas temos que pescar mais, porque o primeiro peixe tem que ser comemorado com um banquete.

faleceu essa noite o homem que me ensinou a pescar e carrego comigo lembranças e seu nome.