quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Os 10 Mandamentos

Estava quase indo dormir mas por algum motivo me peguei pensando nos 10 mandamentos, base da moralidade a hierarquia de pecados Judaica-Cristã. Seja quem foi o idiota que escreveu essas dez frases certamente não poderia ser deus, eu pelo menos me recuso a acreditar que alguém esperto o bastante para criar a mitose celular não seria burro para não entender nada da mente humana.

Quando qualquer pessoa pensa na frase: NÃO PENSE EM UMA MAÇÃ, obviamente acaba pensando nela. Talvez por isso a maldita sina do paraíso para os pobres primeiros projetos de humanos falidos.

Mas vamos aos mandamentos, esse que me fez levantar a uma da manhã para escrever antes que eu esquecesse. Se eu fosse o criador da Terra, do Universo e de todas as coisas orgânicas e inorgânicas não iria passar para um monte de pessoas iletradas ordens tão contrárias aos meus desejos.

Oras... eram apenas matutos, lavradores, artesãos, antigos escravos peregrinando pelo deserto. Eles iriam cumprir de Bel prazer esses mandamentos abaixo:

1 - Jamais Amarei Nenhuma Criação Minha Além de Vós

2 - Minha Imagem Está Em Tudo Que Te Cerca.

3 - Honrarei Seu Nome E Nunca Irei Agir Contra Vós.

4 - Repouse Ao Sábado, Aproveitem, Vós Mereceis.

5 - Ame Sua Prole, Ame Suas Crias Como Eu Vós Amo.

6 - Preserve A Vida.

7 - A Mulher Do Próximo Cobiçada E Conquistada Dificilmente Será Fiel A Ti Por Muito Tempo.

8 - ... (Aqui deixo minha ignorança em nome dos mandamentos. pensei em uma sociedade anárquica, mas esses judeus eram miseráveis demais em roubos para ter que criarem uma lei divina só para isso)

9 - Mentir Só Irá Causar Sua Humilhação Ao Ser Desmentido.

10 - Construa Seus Sonhos Não Os Dos Terceiros.

Viu só? 10 mandamentos tranquilos, suaves e bacanas de seguir. Se for parar para pensar sigo a maioria deles, a maioria das boas pessoas seguem. Mas como diria aquela frase popular: "Para que facilitar se pode complicar?"

Boa noite e bons sonhos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Detetive ao som de Pagode (parte 1)


Meu nome é Antônio Carlos Madureira e trabalho como detetive particular no terceiro andar do Venâncio 2000. A sala é suja e ainda tem marcas do incêndio que ocorreu anos atrás. O antigo inquilino não quis reformar e com o que eu ganho prefiro olhar para as manchas e pensar, que como um aquário, me faz relaxar.

O telefone tocou. Eram 14h20 e estava acabando de engolir o terceiro pastel com refrigerante, o que me fez tossir na linha e o cliente desligar antes de falar qualquer merda.

-Alô?
-Boa tarde.
-Ah, meu nome é Helena. Quem me indicou o senhor foi...
-Não precisa falar o nome. Qual é o problema? Acha que seu marido é infiel?
-Não. Na verdade é com o meu filho.
-A senhora gostaria de vir aqui e conversar melhor a respeito?

Resolvi dar uma geral no ambiente. A voz era charmosa e o bina dizia que era um prefixo do Lago Norte. Esse tipo de gente gasta dinheiro com todo tipo de besteira, logo o caso era garantido.

Entrou uma senhora distinta. Daquelas que foi linda para cacete quando era adolescente e um arraso ao chegar nos 30. Agora tinha olheiras e o rosco marcado, com o que eu chutava ser uma limpeza de pele ressente. Entrou olhando em volta como se não reconhecesse exatamente uma agência.

-Boa tarde.
-Boa tarde.
-A senhora gostaria de sentar? Quer um copo de água?
-Não obrigada.
-Bom, o que aconteceu com o seu filho?
-Na verdade, não é exatamente com o meu filho. Ele é meu enteado.
-Sei.
-O meu marido morreu semana passada e deixou uma herança para mim e para o garoto. Mas existe uma certa...
-Já sei. Quer saber como pegar a parte dele ou mudar o contrato para cuidar do jovem e administrar o dinheiro.
-Não! Por Deus, não.

Isso tava ficando complicado demais, muito boazinha para ser verdade. Estava encucado com o caso antes de pegar.

-O que é então?
-É que no testamento existe uma... como posso dizer? Uma restrição.
-E qual seria?
-Meu marido deixou claro que só deixaria qualquer centavo para o meu enteado, caso ele não fosse gay.
-Que massada!

O velho era esperto. Queria ter certeza que sua prole deixasse seu nome em honra. Agora os quinhentos era provar se o rapaz era ou não chegado em morder uma fronha.

-E o que levou Itálicoo seu marido a desconfiar do rapaz?
-Meu marido era muito machista. Não admitia esse grupo de amigos pintados como artistas, que se depilam e que gostam de teatro e essas coisas.
-Sei... Mas existe alguma prova? Algum envolvimento? Uma carta de amor talvez?
-Não, nada como isso. Mas ele anda com pessoas.
-Que tipo de pessoas?
-Você sabe. Ah, travestis.
-Travestis?
-É.
-Travesti não prova nada minha senhora. É até natural.
-Natural?
-Sim. Todo homem que se preze come, comeu ou vai comer uma boneca. É a mesma coisa que comer uma puta, só se paga mais barato pelo cuzinho e sem celulite.
-Meu Deus!
-Mas não se preocupe. Vou investigar mesmo assim. Tem uma foto do rapaz? Onde ele estuda? Nome completo?
-Tenho sim. Aqui.

Enquanto ela falava que o jovem na foto de sombrancelhas feitas, rosto depilado e maquiagem nos olhos se chamava de Hernandes Gurghel, que estava no primeiro ano do Leonardo da Vinci eu dava uma secada nas pernas da coroa e soltei o preço.

-Vai ficar em seis onças. E obviamente o custo de celular mais passagens.
-Seis onças?
-Ou três peixinhos o que achar melhor.

Ela saiu do escritório. Tinha um caso e 300 pilas na mão em notas novas.

Continua...

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Tempo ruim

Queria apenas chegar em casa e tirar meu sapato, ele estava apertado e uma parte do solado estava gasta, sempre que tirava ele do meu pé notava minha meia rasgada e uma bolha onde antes era minha pele.

A maldita vizinha do andar de cima estava reclamando sobre o cheiro de lixo antes mesmo de abrir minha porta. Disse que eu não sabia o significado da palavra convivência e respeito. Respondi cordialmente com um meio sorriso e um escarro marrom erverdeado na parede de minha porta.

Já estava cansado do cheiro de ovo podre na pia. Um dia pensei em fazer um macarrão com ovo e ele acabou escorrendo para dentro da pia, o número de pratos sujos e a água com gordura me impediram de buscar o ovo. Mas hoje estava particularmente cheirando mal.

Abri a janela e apontei o ventilador para a pia. Abri a garrafa de conhaque enquanto limpava meu nariz tirando uma casca dura e acompanhada de sangue. Tinha que fazer alguma coisa para comer e o gás tinha acabado. Peguei o que tinha sobrado de comida chinesa e taquei o extrato de tomate por cima.

Sabia que não tinha nada para assistir na televisão, estava cansado dos filmes pornôs que tinha comprado na feira e estava começando a me sentir bêbado o bastante para abrir minha gaveta e sair para a rua.

Abro uma lata de cerveja morna enquanto folheio um álbum de fotos. Aqui tem um número e uma foto de uma menina que não vejo a mais de 10 anos. Seguro o telefone em meu peito duas vezes antes de começar a discar.

-Alô?
...
-Alô? Quem fala?
-É o Arnaldo.
...
-Eu sei que você pediu para eu nunca mais ligar...
-Então por que ligou?
-Quero falar com a Juliana.
-Ela está na escola. Faz curso de espanhol durante a tarde.
-Espanhol é? Porque ela não está falando inglês ou algo assim?
-Ela já fala.
-Já fala... Que bom que ela saiu esperta ao contrário de nós dois.
-Agradeço a Deus todos os dias por isso.
-Como vocês estão?
-Bem. Muito melhor do que viver ao lado de um bêbado, que batia em nós duas.
-Você sabe muito bem que nunca encostei um dedo nela.
-Graças a mim.
-Ela nunca perguntou sobre mim?
-Algumas vezes perguntou. Mas hoje já é uma moça não pergunta mais.
-Queria mandar um presente de aniversário.
-Sabe quando ela faz aniversário?
...
-Tchau Arnaldo. E na próxima vez que ligar, esteja sóbrio pelo amor de Deus. São apenas uma da tarde.

O telefone solta um sinal de ocupado. Ocupado com meus dias, meus problemas e minhas escolhas para afastar esposa, amigos e minha filha. Deixo isso de lado, abro o jornal nos classificados, última página:

“Morena BB, completinha para você. Atendo só de calcinha. 707n. Telefone...”

Ainda tenho R$ 120,00 na minha carteira e falar com minha ex mulher, continua me deixando de pau duro.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Olívia

Olívia me pediu um texto um dia, um texto sobre quem é essa pessoa para mim e quem ela pode ser para quem leia.

Olívia é extremamente ambiciosa e consegue adquirir bastante sonhos que parecem irreais para alguns em sua mesma posição.

Olívia é a primeira da sua família a entrar em uma faculdade pública, a primeira a se importar em ler mais do que revistas ou jornais.

Olívia estudou o bastante para passar em dois concursos e por conta de um, hoje trabalha e não se importa em ter que ir a unb de noite e voltar para casa cansada para dormir de madrugada.

Olívia é muito passional. Ela é dedicada em relacionamentos e não se importa em doar o que seja dela para quem ama.

Olívia tem pouca estima. É uma pessoa carente que devota demais suas emoções, como se precisasse de amor como as pessoas precisam de vida.

Olívia tem conversas maravilhosas, decora poesias, curte arte e muitas vezes consegue sobrecarregar nossos sentidos com tantas informações, que polui o que antes era simplesmente lindo por não se dosar.

Olívia foi minha paquera de uma noite, minha namorada, minha parceira de apartamento, minha ex, minha amante e nunca foi minha amiga.

Olívia pediu um texto ao ler que outra pessoa pediu e recebeu. Ela vive fantasmas que não existem e alguns deles que foram criados por mim.

Olívia teve seu emocional destruído por seus medos e por meu ego.

Olívia não deveria jamais se preocupar em um namoro que jamais vai voltar a existir. Ele teve seus momentos, foram bons, foram ruins e se foram.

Olívia sabe que mexe comigo. Sabe, como muitas pessoas que passaram em minha vida, que sou fraco quando se trata de relação a mulheres.

Olívia me mostrou muitas coisas e é realmente uma pessoa que eu apoio e cada dia que passa me orgulha mais. Ela tem uma força que eu apenas posso invejar em minha inércia do momento.

Mas Olívia ainda é muito menina, ela só amou uma vez. E isso de não se permitir que um amor termine e outro venha é pedir para deixar de viver.

Não tenho fé. Mas eu realmente oro para que um dia ela entenda isso.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Minha cidade



confesso que balançou um pouco aqui no peito.

Hipercubo

Uma imagem no espelho congela o instante entre o piscar de olhos que não mais a enxerga. Essa instância é a incerteza que dispara o meu ritmo cardíaco e cria um suor em minha nuca, uma ilusão de medo em meus ombros após assistir um filme de terror sozinho e notar o silêncio gerado em um ambiente sem a luz da televisão ligada.

Estender a mão em frente ao espelho é receber uma cordialidade negada por todos de fora desse recinto dentro de outro, eternamente indo e voltando e tentando encarar em busca de uma identidade tão cara que precisa afirmar o que é real e não reflexo.

Tocar intimamente alguém é notar em sua linhas de sentidos um pouco do choque de retorno de quem é tocado. O calor, o arrepio dos pelos, o sabor do sal deitado em seu derreter de sentimentos, transbordar de dor deitando sobre sua face e o gozo líquido na ponta de sua lingua dividido entre o céu de sua boca e dentes, misturado em um mar de humores entre um músculo que gera sons, fala, e que divide o gozo como uma conversa. Uma conversa de criação de vida sem gerar vida alguma.

Esse Tesseraco de vidas é um retorno da proteína inicial, um detalhe de resgatar ao meio líquido de onde partimos e que com tanto receio a vivemos. Esquecemos ao mirar outro nos olhos que eles são gelatinosos por nos mostrar um reflexo menos nítido da composição da única conversa que vale comentários.

Somos prisioneiros de nossas limitações. De nossos medos. Os mesmos medos que poderia apenas admitir como individual, porque qualquer sintonia com o medo alheio é admitir sociedade e abrir mão dela e de sua própria existência dentro dela é a plena liberdade para a compreensão do ser que é visto e do que é você.