segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Café da Rua 8

Sambinha rolando solto e a companhia de um broder no buscar de cervejas ao balcão e no olhar descarado para uma menina linda de calça branca que servia as mesas.

Ainda bem que seu olhar parou no nosso ao pegar a cerveja que eu buscaria para saciar minha sede. Naquele momento criava o nascer de uma diva, uma musa para o conversar despretensioso de dois caras sobre a beleza.

- Que menina linda.
- Que pequena.
- Belíssimo traseiro meu caro.
- E um sorriso lindo.

Seria o inevitável local que escolhemos ou essa garçonete sem nome e marcante de nosso olhar estaria sempre passando onde nós estávamos?

A cada volta era o olhar rápido e tímido para o lado, da parte dela é claro já que estamos ficando mais velhos e mais descarados, e algumas poucas tentativas de manter o olhar diante de um sorriso de lado.

- Está olhando para ti meu caro.
- Você acha?
- Não acho, tenho certeza.
- Não sei... Será?

Muitas mesas a servir, muitos pedidos para os sedentos do samba. Cantar da sede, meninas bonitas dançando dão mais ainda. Mas vejo que o olhar perdido em uma menina está servindo de desculpas para o pedir eterno de bebidas ao balcão.

- Ela está ocupada, melhor conversar com ela outro dia.
- Espera esvaziar. Vem aqui mais tarde.
- Pode ser. Pode ser.

Me encontrei com o cara comentando mais tarde sobre a menina, sobre o não esperar que contaria enormes pontos, sobre o deixar para o outro dia o olhar de hoje.

- Preciso de companhia para o samba de sábado. Podemos ir?
- Claro.

Podemos meu caro, mas talvez o olhar de sábado esteja voltado para outra pessoa.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

o xote das meninas


a versão mais bonita que já ouvi

Censura

Fitas cortadas, fotos rasgadas, Hds apagados, e-mails deletados, cartas queimadas. Esses detalhes dão uma ilusão que finalmente pode apagar o pensamento de que aquela pessoa marcou e deixou rastros.

Quando se esforçar a lembrar a forma que seu corpo vibrava ao lado de uma pessoa que não é a que toca seus lábios hoje, será que o cortar de lembranças vão servir para algo?

Alguns temas serão seus tabus, seus medos, sua insegurança de viver em um mundo longe daquele que parece mais tranquilo. Talvez um mundo mais bonito e menos sujo, sem marcas, sem umidade, sem suor e gozo.

Censure, corte, omite, finja e vai caminhando para o chuveiro fantasiando entre o cair de uma água morna entre suas pernas que você sabe o que realmente é calor.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Apenas em um café

A jovem está sentada olhando para a mesa há exatos vinte minutos, sei disso por conta do alarme do forno, tinha acabado de colocar as tortas quando ela entrou e sentou olhando para um caderno a sua frente.

Recusou a garçonete duas vezes e está olhando para suas linhas e a caixa de Luke Strike. O olhar pousa algumas vezes sobre o aviso de não fumar e então ela desiste de abrir o pacote e continua olhando para o caderno.

Sirvo o café em minha xícara, tem uma área escrita: “Não confie em quem não fuma.”

- Tome, é por conta da casa.
- Obrigada.

Volto ao balcão, notando sua reação ao ler a frase em sua xícara. Ela abre um sorriso e então olha para mim levantando a caneca. Vejo que ela retoma suas linhas, escreve com vontade e fúria. Rasgando algumas páginas, riscando outras, tomando uma caneca de café atrás da outra. E então exausta parece que encontra o que precisava.

- Sei que é de graça. Mas tomei café demais. O que eu posso comprar aqui?
- Não sei. O que gostaria de comprar?

Ela olha para a caneca, na verdade está segurando com tanto zelo que não consigo evitar de rir.

- É sua.
- Não posso simplesmente aceitar. Me dê um valor.
- Não posso, foi um presente.

Então ela olha em volta, segura a caneca entre suas costelas e cotovelo enquanto mexe em sua bolsa e segura com a boca seu caderno junto a Bic. Tira chaves, batom, algumas fotos cortadas, notas amassadas e dois pequenos livros velhos e gastos. Coloca tudo sobre o balcão e olha atenta.

- Não consigo imaginar nada tão importante quanto essa caneca.
- Não precisa me dar nada. Acho que já era hora dessa caneca ir embora, ela estava querendo sair desse balcão a anos.

A menina sorri e então arranca a folha de seu caderno. Dobra com cuidado a área próxima ao arame e com sua língua umedece o papel, como quem aperta um cigarro, e arranca uma tira branca.

- Acho que era hora deste texto ir embora também.

Ela sai pela porta e me deixa um texto dobrado como o pagamento por minha xícara e quase uma jarra de café. Uma troca justa ao meu ver.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Cicatrizes e emplastos

Percebo que meu olhar está perdido nela quando noto seu sorriso.

- Está tudo bem?
- Apenas divagando.
- Gosto quando me encara assim. É meio que buscar uma lembrança de momentos bons.
- Foram poucos.

...

- Quer um pouco?
- Você sabe que eu não fumo essa merda.
- Tudo bem. Ainda te amo, acho que sempre vou te amar.
- Tenta falar isso sóbrio.
- Acabei de dar uma bola. Estou sóbrio.
- Então experimente falar na frente de seus amigos.

...

- Foi perfeito.
- Foi sim.
- Te amo.
- Para sempre?