domingo, 22 de junho de 2008

Paisagem

Aquela manhã linda se abre e entre o acordar, não existe a vontade necessária de se sair de casa. Um dia alegre para um punhado de pessoas andarem com a família e gastarem seus débitos automáticos ou créditos por momentos marcados eternamente em máquinas digitais ou ambiciosamente em suas memórias mais doces.

Aqui do outro lado, apenas olhando a paisagem, se encontra uma pessoa amarga com o gosto de cinzero, lábios frios e bebida tornando-se bile a cada soluçar involuntário. Ele adoraria apenas se trancar e fugir de si mesmo, do mesmo modo que conseguiu dispensar a sua companhia de ontem apenas indicando a porta.

O celular toca, o telefone toca e o computador mostra que algumas mensagens de e-mails e conversas em Gtalks e Msns estão esperando um sinal de vida. Mas não há vida dentro deste casulo, apenas uma cabeça latejando e um corpo se dobrando para vomitar a cada tentativa de ingerir mais uma dose.

...

No terceiro dia batem na porta. Sem resposta alguém chama um chaveiro e então o casulo se abre trazendo um bom aroma que parece quase tátil ao mau odor desta casa.

Um corpo se encontra caído ao lado de alguns comprimidos e duas garrafas vazias deitadas ao chão.

Nenhuma carta, nada a ser dito. Apenas uma boa paisagem de um homem infeliz.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Rancor

São umas três da manhã quando o telefone toca sem parar na sala. Ele apenas tenta esquecer o som e voltar a dormir, certamente esperando que desistam, e obviamente não é o que acontece. A jovem ao seu lado, murmura em seu ouvido para que ele atenda e então o empurra da cama com os joelhos ossudos e sua testa contra a omoplata.

- Alô.
- Miguel?
- O que foi? Por acaso sabe que horas são?
- Miguel. Papai morreu.

Ele desliga o telefone e então caminha pela casa. Olha para a menina deitada em sua cama e então começa a vestir sua calça, uma blusa de botões amarrotada e faz o nó de sua gravata de qualquer jeito.

- Onde está indo querido?
- Tenho que sair. Se eu não voltar, apenas encoste a porta quando sair.
- Aconteceu alguma coisa?
- Nada. Tem comida na geladeira.

No carro, ele liga o som. Vai ouvindo Electricityscape, enquanto passa pela cidade na madrugada. Desce pelo eixo monumental a caminho da Asa Sul, o aviso de que faltam apenas algumas centenas de dias para o aniversário de 50 anos de Brasília o faz sentir um frio sem propósito.
As luzes dos sinais, poucos carros e alguns anúncios refletem um brilho estranho no vidro do carro, e ele percebe que não buscou seus óculos. Por isso. É por isso que seus olhos estão tão embaçados.
Resolve parar no posto para tomar um café. O celular fica vibrando em seu bolso enquanto ele paga no seu cartão um café duplo e uma carteira de Luke Strike.

- Alô.
- Uma menina atendeu o telefone da sua casa. Onde você está?
- Parei em um posto de gasolina.
- Você está vindo para cá?
- Estou na rua, não estou?
- Quem atendeu o telefone?

Ele entra no carro e acendo o seu cigarro. Dirige até a rodoviária e vê uma prostituta gorda e velha parada perto ao sinal quando resolve parar para acender outro cigarro e olhar de longe a catedral.

- Afim de um boquete querido?
- Meu pai morreu.
- Sinto muito.

O carro parte virando para a L2, ele passa por lindas árvores e percebe a solidão de casas aonde apenas o térreo se mantêm iluminado, talvez uma ou duas casas mantêm uma breve luminosidade azul, televisão ou internet. Os companheiros de um dia de semana de brasilienses.
Ele avisa ao porteiro que precisa ir ao apartamento 501.

- Desculpa Miguel. Seu pai disse que não era para deixar você subir.
- Ele morreu. Ele acabou de morrer.

...

A porta abre e uma mulher de 27 anos com o rosto vermelho e molhado atende a porta. Ela tenta dizer alguma coisa, mas só consegue se escorar na beirada.

- Ele está no quarto?

Ela acena que sim.

- Toma um cigarro.

Ele passa pelo corredor e nota que todos os três filhos estão na estante, à mulher que atendeu a porta, aquele que está fazendo intercambio e este que se apóia buscando coragem de seguir adiante nessa casa que não tem mais suas fotos.
O quarto tem o cheiro de seus charutos horríveis, uma estante cheia de livros e um homem robusto deitado de olhos fechados.
Ele passa as mãos sobre sua barba grisalha, nota o olhar forte mesmo em seus olhos fechados. O mesmo olhar que o expulsou desta casa anos atrás.

- Você não é meu filho!

Ele beija o rosto do homem e deixa a carteira de identidade sobre o seu peito.

- Mas você é meu pai. Velho filho da puta.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Cantada

Ele apenas passou pelo corredor. Estava trajando preto, trazia lindos olhos claros, uma barba castanha clara bem baixa e o olhar que congelou por um minuto inteiro trazendo o rubro ao rosto de quem se concentrava na leitura.

Toda a vez que olhava para o livro podia sentir o enorme imã sentado atrás de si. Essa luta contra si mesma era o motivo do sorriso interno, da certeza que ainda estava sendo desejada, não importando os problemas.

Esse olhar ainda se estende por mais alguns segundos ao se levantar. Dura ainda mais no olhar para trás, no notar o interesse de quem parte deixando um sorriso bobo e o pensamento de ter perguntado pelo menos as horas, ou qualquer outra coisa para ouvir ao menos sua voz.

- Qual é seu nome?

Essa frase veio junto com o olhar que desceu e correu para lhe encontrar no meio do caminho ao serviço.

- Podemos nos encontrar mais tarde?

Sim. Definitivamente ainda estava na pista.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Anônima

- Seu último conto era verdadeiro ou apenas uma ficção?
- Faz alguma diferença?
- É que eu nunca tenho certeza. Só sei que você nunca mais escreveu sobre mim.

...

- Escreveria sobre mim?

Escrever sobre você é perigoso. Quando eu estou falando existe a pequena possibilidade de que em algum momento você esqueça o que eu digo. Que talvez o tempo distorça seus pensamentos, ou talvez os meus. Assim, talvez, não deixe provas que estou apaixonado por você.
Ir a uma festa junina, ser tirado para dançar quadrilha com uma suculenta e jovem adolescente, acaba ficando um pouco pequeno perto do seu sorriso me olhando dançar.
Estou preferindo mil vezes o entediar dos demais em nossa mesa em meio a beijos, o seu sussurro em meu ouvido dizendo o que sente por mim e seu quebrar de pescoço que me faz querer correr com você de qualquer lugar público.

- Escreveria sobre mim?
- Poderia escrever sobre como adoro te fazer gozar em minha boca?
- Você só pensa em sexo?

Não, eu penso em com está sendo perfeito esse reencontro, como você me trás paz e como adoro a sensação de pavor ao saber que estou em tuas mãos: Anônima.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Passarela

São 32 modelos, divididos entre sete homens e 25 mulheres cansados e apavorados. Bom nem todos, para ser sincero um deles está calmo, enquanto espera o fim da maquiagem, vestido apenas de uma calça de couro verde-escura e uma pulseira cara em seu pulso esquerdo.

Os olhos dele pousam em uma modelo, que deve estar entre seus 15 ou 17 anos, deixando-a sem graça mesmo antes de chegar perto dela.

- Quem vai arrumar seu cabelo?
- Tatiane Ferraz.
- Vai estar em boas mãos. Fique tranqüila.
- Eu estou.

Obviamente era uma mentira.

- Quer dar um tiro?
- Não obrigada. Eu não...
- Por enquanto.

Ele passa as mãos entre a nuca e as costas, sentindo o estremecer entre seus dedos.

- Nos vemos depois na festa tudo bem?
- Eu tenho que sair logo depois. Tenho que encontrar o meu namorado.

Ele sorri e aperta de leve seu seio esquerdo enquanto a beija.

- Aham. Te encontro mais tarde.

A modelo é chamada para a pista. Seus passos são firmes e um rosto de menina expressa o olhar frio de uma mulher para seus clientes e os flashes.

Ela ainda sente as mãos grandes em seu seio, sente a língua dormente entre os dentes e uma leve euforia da cocaína confundida com a paixão.

“Que se dane. Sou uma estrela.”

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Lágrimas

Me disseram uma vez que era maldito por fazer uma mulher chorar. Ouvi a mesma coisa de quem a desejava e não a tinha. Esse que ela chamava de amigo e que sempre a fez feliz e jamais derramou nenhuma de suas lágrimas, mas que sempre as secou.


Escutei engolindo minha própria ira e minha dor junto. Não pelas lágrimas que ele secou, e sim pela memória que me atacou por cada uma que fiz rolar em sua face que amo tanto.

Em um sorriso seco e que já cheirava a vitória, ele me disse com orgulho que jamais iria fazer ela chorar ao lado dele. Que jamais iria fazer que ela se sentisse machucada como eu a fiz sentir.

Mesmo com meus olhos tremendo, metade de ira pela cobiça de outro homem ao que me era mais caro e metadde pela dor do que tinha criado eu pude sorrir. Sorrir até que se tornasse uma gargalhada sem fim que a todos atraía, enquanto ele me encarava como a quem encara um louco.

"Do que você está rindo seu idiota?"

"De você. Se ela jamais chorar por ti, está mais do que claro que jamais te amará."

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Encaixotando Gisele

- Lembra-se daquele casaco que ela comprou na viagem para Campos do Jordão?
- Um com bolinhas não era?
- Esse mesmo. Eu me lembro que ela gostava tanto dele e nunca mais pode usar, fazia calor demais em Brasília para usá-lo. E agora ficou tão frio.
- Quer que eu pegue mais um vinho? Esse acabou.
- Aham, quero sim.

Os dois estavam com uma caixa aberta no meio da sala e guardando todas as pequenas peças que compunham Gisele: os livros, peças de roupas e os pequenos objetos. Ainda não tinha coragem de buscar o pequeno álbum de fotos deixados em cima da mesa da sala.

- Abro o Gato Negro ou Concha y Toro?
- Gato Negro, o Merlot.
- Aqui meu velho.
- Saúde.

(...)


- O que você quer fazer com as fotos?
- Não sei.
- Acho que você deveria guardar as fotos.
- Tenho uma penca delas no meu computador. Gisele que sempre gostou de revelar as fotos, ela dizia que olhar fotos no computador era como ler um livro nele. Um crime.
- Mais um motivo para guardá-las então.
- Não quero guardar nada.

Mais um álbum desce até ao fundo da caixa, ele o acomoda entre alguns livros que ela sempre lia e relia e alguns CDs. Ainda incomoda, machuca demais e ele ainda não encontrou o casaco.

- Onde está a porcaria do casaco de bolinhas?
- César.
- Não quero encontrar esse casaco quando já estiver fechado a caixa. Eu tinha que guardar tudo antes de guardar, eu não quero deixar nada espalhado...

Ele só abraça o amigo, deixando de lado as taças de vinho enquanto César chorava entre as frases.

- Eu não pude fazer nada. Estava ali... Sentado ao seu lado... Só podia esperar, vê-la definhando. Droga cara. Eu não pude fazer nada.
- Você fez mais por ela do que qualquer outro.
- Ela prometeu ficar do meu lado, disse que iria melhorar.
- Ela te amava velho. Todo mundo a amava muito.
- Não é justo Rodrigo. Porra... Ela só tinha 25 anos. Nós estávamos bem. Não é justo.
- Eu sei.

O câncer havia tirado o toque de pele, a mordidinha na língua quando ela sorria, o rosto triste quando se sentia perdida e principalmente o acomodar de sua cabeça em seu peito no meio da noite e o dizer baixinho:

“Vai continuar me amando amanhã?”