quinta-feira, 8 de maio de 2008

Desclassificados

Cabisbaixo, o menino que guarda os carros debaixo do prédio aonde trabalho, estava com a camiseta do flamengo enquanto comia um sanduíche de pão francês.

- Só time de fora para tirar o flamengo né?

Sempre que tem jogo a gente troca umas palavras, mas foi a primeira vez que vi ele com olhos vermelhos.

Estava vendo o jogo até o 2X0, depois disso estava transando e não pude ver o resultado final. Mas como não ouvi nenhum rojão e senti uma cidade mais silenciosa que o normal, tive para mim que estávamos desclassificados.

Cheguei ao trabalho com a camiseta do Flamengo, prometi que a usaria ganhando ou perdendo e a ironia me fez usar em um jogo ganho deixando verdades absolutas tornarem-se sonhos.

Teria sido o comemorar do domingo? Encheram tanto a cara assim? Comeram putas demais? A enorme vantagem subiu a cabeça? Porra... Logo no Maracanã galera? Sujeira... Muita gente voltando para casa, muitas mulheres para apanharem de seus maridos, muitas brigas em bares, talvez algum assassinato.

Agora é desforra. É ouvir os botafoguenses sacaneando, críticas sobre a ilusão coletiva flamenguista, ler uma penca de blogs falando contra e fazer o inverso. Gritar em plenos pulmões que aprendeu a gostar tanto, mas tanto desse time, que torce e grita Flamengo até quando perde.

É meu caro... Bem vindo ao papel de torcedor. Seque as lágrimas e siga em frente.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A camisa 11

Estive semana passada no Cruzeiro, buscando um novo apartamento para morar. Este bairro tipicamente carioca, dentro de brasília, me atrai por memórias e as pessoas que fazem parte dela e uma cena em uma de suas quadra me fez rir demais.

Um casal de namorados que não deveriam ter mais do que 14 anos estavam discutindo depois da escola (os dois estavam de uniforme). Aparentemente ele havia feito uma enorme cagada e a menina magoada, não dava nenhum sinal de perdão aos seus apelos, pegou sua mochila, seu fichário e foi saindo de nariz em pé. Então o menino grita, sem nenhum pudor a quem esteja a sua volta:

“Tereza! Depois de você, bem depois... Só o Flamengo Tereza!”

...

Este domingo de 04 de maio, vai ficar marcado para mim. Sempre escuto uns coroas falando de datas especiais de futebol, de quando seu time jogou para caralho e teve grandes conquistas. Ontem foi um dia como este, o Flamengo consegui ser Bi-campeão pelo campeonato carioca em uma campanha que está deixando saudades no partir de Joel-Patuá-Cachaceiro-Prancheta-Santana.

Como toda a vitória de final de campeonato deveria ser, essa não foi fácil. Tudo parecia ganho, um gol de vantagem até que Bruno lembrou que não tinha almoçado antes da partida devorando aquele maravilhoso frango. Tenho para mim que isso apenas foi praga de goleiro usando qualquer número que não seja o 1, deixe isso para o Rogério Ceni porra!

Tudo igual até que no segundo tempo, até a substituição do mestre Joel e a entrada daquele que já não tem mais nome além de “O iluminado”. O baiano Obina deixa a vantagem para o Flamengo, põem o Maracanã no chão calando o Botafogo nos primeiros 3 minutos e criando o hino de Bi-campeão antes mesmo do fim do jogo.

Bruno compensa com sua camisa verdadeira e suas defesas, assim como Tardelli e Obina marcando mais dois lindos gols antes do jogo acabar. Assim marcam a confirmação do Bi-campeonato no 3x1, para ninguém dizer que ganhou somente por conta da vantagem.

Seria um dia feliz para quem está apaixonado pelo futebol e amando o Flamengo, mas receber uma camiseta com o selo do clube de regatas e o rasgado 11 nas costas... Isso beira a premonição e quase fez esse idiota cair em lágrimas. Usaria mesmo perdendo. Mas por hora? Usarei ganhando rapá, porque ninguém mais pára esse meu Flamengo!

Quanto a Tereza? Sim. Ela voltou sorrindo para o seu flamenguista arrependido. Salve Jorge!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Cafajeste

Cafajeste sm. Brás. Sujeito desclassificado.

Desclassificado adj. 1. Que não teve classificação. 2. Indigno de consideração social.

(fonte: Dicionário, Aurélio Buarque de Holanda)

Tenho me sentindo perdido nesses últimos dias, andando de um lado para o outro e deitando em diversos leitos para acalmar minha sede e tentar estar em harmonia com novas ou antigas amantes.

Ultimamente tenho escutado que não deveria iludir as pessoas, que nenhuma mulher deveria ser tratada de outro modo que não seja a prioridade aos olhos de um homem. Concordo com isso. Jamais trate uma mulher como uma qualquer, trate-as como especial enquanto estiver com elas, que ela seja a única aos seus olhos e toques o tempo que durar. Mas não entendo a prioridade. Esse conceito egoísta é que eu não entendo.

Está em paz ao meu lado? Gosta de nossos momentos e da liberdade que te dou para ser quem queiras? Por que me cobra que seja inteiramente seu? Por que não posso sair de sua casa, comer na de outra o tempo necessário para recuperar a carne e iniciarmos um novo pleitear de nossos corpos?

Sou um eterno apaixonado pelas mulheres que passam em minha vida. Qualquer mulher com quem divido minha cama tem minha inteira devoção, seja para o desfrutar de seu corpo ou o nublar de seus pensamentos.

Terá minhas sinceras e falsas palavras. Cada uma aos seus interesses, modos e momentos. O peito que pousa para dormir, o corpo que te abraça enquanto sorri ou esconde lagrimas pela noite, será seu enquanto não acordar. Será seu até que me digas que precisa ser somente seu. E então irei partir enxugando lágrimas e escondendo as minhas.

Queria jamais ter sofrido uma desilusão que me permitisse ser somente de uma novamente. Adoraria o envolver displicente de seus amantes que tanto reclamam em meus braços. Quem sabe passar incógnito e não ser o ideal de seus sonhos? E assim quem sabe, não me chamaria de cafajeste.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Pornografia

- Encontrei em meio às revistas... Estava lá, dentro de uma caixa, são vários DVDs!

- Calma Carolina. Exatamente sobre o que são esses filmes?

- Como assim? São vídeos pornográficos Amanda! Dentro da minha casa!

Eram apenas duas da tarde quando Carolina encontrou a caixa secreta de Arnaldo, ela estava arrumando sua estante de troféus do segundo grau e percebeu uma caixa que nunca tinha notado antes, cheia de DVDs pornôs.

- Mas qual é o problema afinal?

- O problema que isso aqui é uma casa de respeito Amanda. Tenho duas filhas, uma de 14 e outra de 17 anos. O que você acha que elas iriam pensar do pai delas ao encontrar essa caixa de coisas sujas?

O fato, é que na verdade as meninas nem ligariam. A mais nova passava a maior parte do tempo acessando a internet e deixando sua imaginação correr solta em sites abertos de pornografia e a mais velha... Bom, talvez uns dos filmes da internet fosse dela mesma como atriz.

- As meninas são grandinhas. E hoje em dia todo mundo sabe que isso existe Carol. O Arnaldo é um excelente marido, não acha que está exagerando?

- São mais de 18 anos de casados e nunca imaginei tamanho disparate. Para que ele precisa dessas coisas?

- São DVDs ou VHS?

- Hã? São DVDs por quê?

- Menos mal querida... Se fosse VHS seria praticamente uma coleção de antiguidades, se são DVDs são recentes. Talvez seja uma fantasia do momento.

- Me recuso a continuar deitando na mesma cama com um homem que veja pornografias. Isso é um absurdo!

- Olha, poderia ser muito pior. São apenas filmes. Ele poderia estar te traindo com uma menina mais nova.

- Mais é traição do mesmo jeito. Uma traição contra Deus!

Carolina havia se convertido há uns quatro anos. Ainda era uma mulher atraente em seus 44 anos e mantinha a forma por conta da academia e caminhadas no parque da cidade. Mas desde que entrou na igreja Deus tem sido seu melhor companheiro.

- Porra Carol... Por isso que o Arnaldo está vendo pornografia. Qual foi a última vez que você deu o cú para seu marido?

- Escute aqui Amanda. Você é minha amiga, mas não é porque você vive uma vida desregrada de solteira, que devo dizer que é uma vergonha para uma mulher da sua idade, que pode falar essas perversões sobre minha vida pessoal.

- Vai tomar no meio do seu cú Carolina! Liga para a porra, do corno, do seu pastor ao invés de mim na próxima vez! Caralho!

Amanda era uma mulher que foi casada o suficiente para saber quanto tempo deve se dividir a cama com um homem ao invés de uma casa. Ela se separou como a maioria de suas amigas, mas nunca quis ter filhos e viver de pensão. É uma profissional de fibra que adora o que faz e ir ao Beirute com suas amigas após o trabalho. Ainda em seus 38 anos, atrai mais homens do que realmente precisa. O que sempre deixa claro que a cansa.

- Alô? Desculpa Amanda... Você é a única pessoa que eu posso falar sobre isso. Prefiro morrer ao contar para o grupo da igreja.

- Tudo bem Carolina. Olha, ele chega que horas?

- Hoje ele vai para a academia, deve estar chegando umas 19:40 ou 20 horas.

- Tudo bem. Pede para as meninas irem para casa de uns amigos, vai para o shopping, compra uma lingerie bonita, uma coisa fácil de comer mais tarde e assiste os filmes enquanto seu marido não chega.

- O quê?

- Você quer salvar a porra do seu casamento ou não?

- ...

- Vai assistindo e tenta se lembrar o que você fazia quando era uma adolescente. Lembra das vezes que ficamos com o Rodrigo na casa dos pais dele no Lago Sul?

- Não acredito que você está falando isso.

- Se eu me lembre, você ficou rouca alguns dias por conta do tamanho do pau dele não foi?

- Meu Deus...

- Assiste a porra do filme e come seu marido mulher. Está dentro da sua casa. Isso deve ser liberado por Deus pelo menos.

Arnaldo chegou por volta das 19:50, pontual como um relógio, o serviço estava estressante e ele agradecia pela academia por deixá-lo um pouco mais relaxado para o dia seguinte. Entrando percebeu que as meninas não estavam e tão pouco a mesa estava posta, havia um bilhete sobre ela.

“Venha para o quarto.”

Entrando em seu quarto, ainda desconfiado, viu sua mulher vestida com uma lingerie branca toda transparente, com uma linda meia calça e um olhar sacana voltado para a televisão onde estava passando um filme de sacanagem.

Carolina parecia fora de si, mexia freneticamente em sua boceta em um delírio sem tamanho. Gozava como há muitos anos não gozava.

- Porra Carolina! Mas que merda é essa?!

Arnaldo se divorciou de sua mulher em menos de duas semanas. O juiz aceitou o divórcio sem pensão para mulher, pois o marido disse que ficaria com as meninas para afastar delas a degenerada que a mãe era.

Logicamente a filha mais velha (Tatiana era seu nome) jamais confessou que a caixa pertencia a ela e continuou sua coleção na casa do seu namorado.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Correspondência

- Chegou uma carta para você.

A garota que acaba de voltar de seu estágio deixa a bolsa no sofá e segura a carta com uma nítida desconfiança. Nunca recebera uma carta, além de boletos e cartão enviados, e com ela em mãos apenas tentava desviar o olhar curioso de sua empregada.

- Acho cartas tão românticas. Que sorte você tem menina.

- Obrigada Adelaide. Não ponha meu prato, vou comer mais tarde.

Deixando sua pasta na escrivaninha, ela tira seu tênis e senta em sua cama com sua correspondência em mãos. Nela tinha escrito apenas seu nome e como remetente as iniciais J.I.

Clarice,

escrever esta carta é uma confissão de culpa escrita a punho. A necessidade de dizer o que me incomoda a meses, dispersa minha integridade e que precisa deixar provas que possa me por sobre julgamento de quem prezo.

Estou traindo meu melhor amigo ao que penso em relação a ti. Tudo o que construí em 13 anos de caminhada baseada em respeito, confiança e apoio foi destruído ao mirar de meus olhos e o tocar de suas mãos.

Estou apaixonado por você. Não posso deixar de dizer o que me consome e me tira o sono. Quero o sorriso voltado a mim ao invés do Hugo. Quero o toque de suas mãos e o cheiro próximo de sua pele. Quero que seja meu motivo de viver, além das Musas que me fazem escrever estas linhas.

Não tenho medo te de olhar nos olhos e repetir pessoalmente o que derramo nesta folha. Apenas assim fiz, para que mostre ao meu irmão a nota de confissão do estremecer de minhas ideologias, pelo sabor de um sonho ao seu lado.

Por favor, recuse minhas palavras e me afaste do círculo que traí, no momento que dançamos juntos sem ouvir nenhuma música além do tom de sua voz ao sorrir e no flerte imaginário que vi em seus olhos.

Sei que percebeu, ao nos despedimos, quem te escreve essa carta. As iniciais não foram para me acobertar, apenas busquei um nome que estive a altura de minha traição.

p.s: me desculpo pelas linhas exageradas e ridículas.

Judas Iscariote

Mãos trêmulas alcançam o telefone as três da manhã, uma voz de choro e lágrimas dizem algo incompreensível a princípio.

- Clarice? Alô! O que foi amor? Clarice!

- Por quê nunca me escreveu uma carta?

- O quê?

Ela desliga o celular e chorando beija a carta amassada em suas mãos, selando-a com um beijo.

- Meu amor...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Uísque

Minha menina pede uísque quando entramos nesse café. O garçom me encara por alguns instantes aguardando meu consentir.

Lógico que sim meu caro! Ela merece o valor do uísque. Sirva o quanto ela queira e me traga minha maldita cerveja.

- Caubói por favor. Gelo para mim, só em caipirinha no verão. Gosta de caipirinha?

O meu olhar de surpresa é calado pelo desdém do dela e o sorriso do garçom.

Ela me dá um beijo e pede licença para ir ao banheiro. O garçom me oferece um copo de uísque e ao recusar ele me serve assim mesmo.

- Vejo casais entrando e saindo dessas mesas a muitos anos. Esse olhar merece um uísque.

- Mas eu não bebo uísque.

- Acredite, jamais irá parar de beber após essa noite.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Corte

Na quinta série eu me lembro de uma menina parada debaixo de uma árvore agachada e olhando para suas mãos. Parecia como todas as outras meninas da escola, com o mesmo uniforme e um all star vermelho.

Estava olhando para ela quando me chamou.

- Você já se cortou alguma vez?

Ela pegou minha mão e me passou um estilete escolar, fiquei com o objeto em minha mão olhando para ela.

- Não dói. Na verdade machuca muito mais pensar no corte do que fazer.

Ela me mostrou sua mão cortada em um desenho sangrento, parecia estar escrito amor.

- Tem que doer para sentir que valeu a pena.

Ela passou o estilete em minha mão. O corte foi fundo e levei 14 pontos. A menina foi expulsa e nunca mais a vi. Mas ainda posso sentir sua mão macia embaixo da minha antes do corte e o sorriso ao ver minha cara de dor.