- Queria deixar de sentir esse desejo por ti. Ele me nubla as idéias e não permite que ponha meus objetivos em foco.
- Uma vez me disse que seu objetivo era me levar para cama.
- Isso! Mostre cruelmente como que me reduzo em estar contigo.
- Queria deixar de sentir esse desejo por ti. Ele me nubla as idéias e não permite que ponha meus objetivos em foco.
- Uma vez me disse que seu objetivo era me levar para cama.
- Isso! Mostre cruelmente como que me reduzo em estar contigo.
Já são mais de dez cervas na conta e as meninas já saíram da mesa.
- O Batman é o melhor super herói que rola.
- Todo mundo paga pau do Batman, me amarro no cara, mas o Super Homem é um personagem massa.
- O Super Homem? Tú tá de brincadeira.
- Não cara, sério mesmo. O Super é massa! O problema são as histórias que fazem dele.
- Cara qual é a graça de um super herói que é invulnerável a tudo e sempre ganha?
- O Batman é a mesma coisa. Só que ninguém pára para pensar nisso. O cara sempre ganha, não importa de quem seja.
- Mas pelo menos sai com uma costela quebrada e nariz quebrado as vezes.
...
- Pensa no seguinte. Se o Super Homem existisse de verdade seria mais sinistro que o Batman.
- Lógico que não!
- Pensa só. Um assalto. O cara sai do banco...
- Com um saco de dinheiro? Isso só rola em quadrinhos.
- Porra sei lá. Por debaixo daquele túnel que nem rolou com o Banco Central então.
- Beleza.
- Aê tão passando pelo túnel e tem um vulto colorido, de capa vermelha, grande e bombado pode crer?
- Aham. Grande e bombado... Tá gostando de ir a academia né?
- E ele tá voando! Voando cara! Isso é muito sinistro.
- Tipo voando dentro do túnel? Tipo batendo a cabeça no teto, se sujando de terra?
- Porra! O cara tá voando beleza? O túnel é alto.
- E creio que iluminado e sem poeira para notarem o cara direito também.
- Foda-se! Tipo isso. Posso continuar?
- Manda aê.
- Aê os assaltantes descem tiro no cara. As balas ricoceteiam pela parede do túnel, vai que uma ou outra acerta um dos caras. Eles sentem as armas queimarem em suas mãos. Queimaduras sérias, de aço derretido. E então ele prende todo mundo em uma barra de ferro que pode quebrar até suas costelas, deixando eles respirando com dificuldades.
- Só...
- Muito mais sinistro que o Batman.
- Não acho não.
- Porra como assim...
- Dentro desse seu parâmetro bêbado e nerd de raciocínio, vamos ver o Batman tá? O cara não existe saca?
- Como assim não existe?
- O Batman não existe. É uma lenda urbana, as pessoas falam de bandidos, traficantes e assaltantes que são duramente espancados pelas ruas. Mas ninguém nunca o viu.
- Claro que viram, foram espancados por eles.
- Não meu velho. O Batman é um vulto que te taca no chão e destrói ossos. Quando você pensa em luta marcial contra um grupo de pessoas, você não perde tempo batendo de leve em todo mundo. Você acerta um golpe muito forte para desnortear as pessoas, para ter tempo de bater em todos.
- ...
- E o Batman é fascista. Ele faz lei com as próprias mãos. Não acredita em direitos humanos. Ele espanca querendo matar, mas não faz isso porque é bichinha.
- O Batman é bichinha?
- Porra até parece que você não conhece nenhum gay. Traumatizado, cuidado por um velho mordomo inglês, malhado, bonitão, milhonário, playboy, veste colan, solteiro e vive com um menino de sunga ao seu lado. Viadão.
- Viadão responsa.
- E mais casca grossa que o Super.
De todas as mulheres de minha família, a que eu mais me fascinava era uma senhora a quem todos chamavam de Tia Regina. Ela odiava que a chamem de tia, e sempre nos corrigia, em meio a seu praguejar, que não a chamassem assim.
Ninguém jamais soube exatamente a idade dela. Alguns chutariam uns 70 outros quase 80 mas a educação e intimação dos mais velhos nos impediu saber sua verdadeira idade.
Sabemos que ela foi uma mulher muito bonita, a mais bonita de todas da família. Quando mostrava suas fotos antigas, coisa que adorava fazer, sempre víamos uma linda mulher, com a aparência das antigas divas do cinema americano. Loira de cabelo prata, olhos vivos e brilhantes, com uma pele bonita e sempre bem vestida, nunca a vi sorrindo em nenhuma foto.
Ela foi escondida para a Itália na segunda guerra mundial, tinha 15 ou 16 anos e serviu como voluntária numa enfermaria. Alguns dizem que ela fugiu porque estava grávida, ela me contou que queria apenas embarcar em uma aventura. E dizia sorrindo que os italianos eram lindos de doer.
Gostava do modo como ela fumava um daqueles seus cigarros finos, em piteiras antigas de marfim, já amarelado e manchando. Sempre acompanhado de um copo comprido preenchido de seu Campari. Minha mãe diz que é bebida de antigas meretrizes. Minha tia dizia que meretriz é a mulher que se casa sem amor.
Ela sempre ouvia música em um quartinho separado em um canto de sua casa. Lá ninguém podia entrar e diversas vezes, eu ficava sentado na beirada da porta, escondido, ouvindo suas cantoras de voz suave e línguas estrangeiras.
Um dia ela me chamou enquanto ouvia música. Primeiro corri assustado e então ouvi ela me chamando baixinho, dizendo que era para eu sentar com ela e ouvir de dentro.
Me colocou em seu colo e ficamos ouvindo um bom tempo as músicas tocadas pela agulha. Ela tinha um sorriso no rosto e me pediu para eu abrir uma gaveta, que se encontrava numa escrivaninha velha, eu tinha 8 anos, aonde tinha uma foto antiga e em preto e branco de um piloto. Ele era muito bonito.
“Esse meu filho é o único homem que eu amei.”
Ficamos ouvindo o disco até o fim e com a foto em nossas mãos. Então ela me abraçou com força e tocou meu cabelo enquanto beijava meu rosto.
“Nunca peça uma mulher
Ela morreu nessa madrugada. Sem idade, amando apenas um homem e foi muito feliz por isso. Vou sempre me lembrar da tarde que ouvimos música juntos, do cheiro de seu Capri, de suas cantoras européias e do Campari em seu copo.
O casal fica abraçado um tempo após o gozo, os dois corpos cansados e respirando suados e satisfeitos. Ela deita a cabeça sobre o seu peito largo, enquanto passa a mão por suas coxas.
- Sempre gostei de suas pernas.
- Cláudia, eu tenho que levantar.
- Estou te machucando?
- Não. Só tenho que levantar.
Ela fica assistindo enquanto ele procura a cueca, mexendo na cama e ao encontrar se senta e a veste.
- Não quer tomar um banho?
- Vou tomar em casa.
- Pode tomar aqui também.
- Porra Cláudia! Você sabe muito bem que não posso.
- Fala que foi a academia.
- Caralho...
Essa discussão é antiga e sempre termina do mesmo modo. Ela desiste de levar aos limites, dessa vez o orgasmo tinha sido bom o bastante.
- Quer que eu prepare um sanduíche para você?
- Com carne ou daquelas merda de sifú que você come?
- É tofú.
- Se não sangra é sifú.
- Tem rosbife do jantar.
- Tem que ser rápido.
Ele olha para o corpo nú caminhando em direção a cozinha. Essa mulher é linda. Os anos e todas essas manias de saúde, comida vegetariana e chás ainda mantém sua pele firme mesmo entrando nos quarenta.
Ela está preparando a comida enquanto ele a abraça e apóia seu queixo em seu ombro.
- Você é deliciosa.
- O seu problema Paulo é que você sempre ama com seu pau.
- Pensei que era o que mais gostava em mim.
- Só quando me abraça por trás.
Eles não chegam a transar. Ele desce a beija um pouco e a penetra o suficiente para que ela ainda possa sentir que poderia transar com ela novamente se quisesse.
Então veste sua calça e senta para comer o sanduíche.
- Está uma delícia.
- Por que parou?
- Tenho que ir, você sabe.
- Como está com a menina? Qual é o nome dela mesmo?
- Renata. Não quero falar sobre a ela.
- Por que não? Vocês sempre conversaram sobre mim.
- Cláudia!
- O quê Paulo? Não pode falar a sua nova mulher sobre sua antiga amante?
Ele se levanta, deixa o sanduíche pela metade no prato, pega as chaves do carro e abre a porta da casa.
- Você tem que deixar as chaves Paulo, você não mora mais aqui.
- Enquanto não assinar os papéis ainda sou seu marido e aqui ainda é minha casa.
- Vai se fuder!
- Prefiro fuder você.
Uma deliciosa ex-esposa. Uma embriagante e jovem esposa. Um escroque que não consegue separar quem ama de quem deseja.
“Foda-se! Fico com as duas.”
A bebida desce fácil e aquece nessas noites frias e chuvosas de outono. Arrepio pela memória que não permite esquecê-lo.
“Adoro passar as noites de chuva ao seu lado.”
Sempre dizia isso ao seu ouvido. Dizia pelo sorriso que tentava esconder, maroto e de canto.
Peço mais uma dose de uísque, enquanto dedilho o celular, buscando coragem e pensando se ligo ou não.
Ouvir um não por si só, não me assusta tanto. Estou tremendo pela possibilidade do sim, que certamente faria minha noite valer a pena.
...
Vejo um casal sentado a minha frente. Penso no meu acompanhante ao meu lado, esse que esquenta meu coração e mantêm minha pele fria. O que marca minhas costas e não me dá seu pau para minha boca.
Estou cansada de suas palavras bonitas. Elas não estão servindo para este frio que está além da noite, que trinca meus ossos e faz minha pele gritar por ele.
...
Ele atende. Diz que está acompanhado. Desligo.
Sendo mentira ou não. Não ouço mais o que poderia ter a me dizer. Que busque nos braços alheios o que certamente não terá de mim. Essas sombras.
Viro de uma vez meu uísque e carrego meu parceiro debaixo do braço.
Que a literatura e o lindo poeta morto, seja o prelúdio de minha masturbação noturna de hoje.
Passos calmos e curtos, um pé após o outro, na frente do outro, mantendo o equilíbrio e olhando sempre
O vento balança meu cabelo e tenta secar o suor que escorre pelo meu rosto. Estou sorrindo, sempre sorrindo nas alturas, no meu espaço, aonde tudo que me cerca lembra seu sorriso, seus braços e os cabelos loiros brilhando contra a luz.
Estou leve como sempre estive ao lado dela. Consigo ouvir seus sussurros em meu ouvido. Um doce arrepio corre por minha pele, um não sentir de minha roupa tremendo sobre o corpo. Acho que ela diz: “eu te amo”.
Estar apaixonado é isso não é? Um impacto forte, calor e uma dor que te consome por alguns segundos. Vejo as mesmas pessoas apontando para mim de cima. Será que alguma delas já amou assim?
Saindo do banho, perfume, roupa separada e apenas terminando de fazer a barba para ir à festa. Se realmente o que me disseram for verdade, a noite de hoje será uma das melhores.
Estou terminando de fazer a parte debaixo da barba, ainda suja de espuma, surge um clarão acompanhado de um estrondoso som.
No meio da luz surge um senhor. Parece um mendigo, rosto marcado, de roupa gasta e um olhar de espanto encarando a mim e minha casa. E então sorri gritando com seus olhos amarelados.
- Sim! Exatamente como me lembro. Eu consegui!
- Hã... Que porra...
Ele me segura os braços com seus dedos magros e sujos. Me encara da cabeça aos pés e fica me tocando mais do que seria confortável.
- Sim. Jovem e lindo! Eu me lembro de quando era assim.
- Tira as mãos de mim, seu escroto! Como entrou na minha casa?
- Eu venho do futuro. Não tenho como te explicar o modo ou sequer dizer de quando exatamente, mas precisa acreditar em mim.
- Tudo bem, tudo bem. Seu hálito é insuportável, fique longe.
O velho anda para trás me admirando, como alguém que finalmente encontrou tudo que importava em sua vida. Ele mexe suas mãos excitadas e senta no vaso sanitário.
- Tem que acreditar
- O quê?
- Hoje a noite vai ter uma festa. Você vai conhecer uma mulher maravilhosa, incrível, a Deusa que sempre sonhou a que vai calar a boca de todos seus amigos e mulheres que conhece e virá a conhecer algum dia.
- Aham...
- Ela vai destruir sua vida. Depois de se envolver com ela nunca mais será capaz de ser você mesmo. Ela vai te consumir por completo, vai fazer que perca seu dinheiro, que pare de falar com seus amigos, que não encontre mais trabalho, vai perder sua família e sua vida. Ela vai te consumir até não sobrar nada de você.
Uma nova luz surge atrás dele e posso ouvir seus gritos, enquanto desaparece em meio à luz.
- Não importa o que aconteça. Não vá a esta festa hoje. Não saia de casa hoje! Não saia...
Termino de fazer minha barba, visto minha melhor roupa e escolho bem meu perfume. Olho para minha carteira, separo meus cartões e agradeço pela visita deste homem do futuro.
Quase esqueço a camisinha.