domingo, 24 de fevereiro de 2008

Folha partida ao meio

Seja meu Judas querida e sele minhas convicções com um beijo. Deixe que nele todos os olhares e flertes jogados entrelinhas, sejam dissolvidos no seu sabor, no envolver de seus braços e no peso de seu corpo.

Nunca nos desligamos dos corpos que nos moldaram. A pele não esquece. Ela absorve os vãos criados nos primeiros toques, uma memória táctil, do corpo que é lido em braile por meus dedos.

Pausa... o tempo nos incentiva a calma e o prolongar. Metas olvidade tantas vezes pelo desespero da perda que queima na juventude. A mesma que destruiu este coração uma vez.

Viver no cerrado me moldou. Eu preciso da queima! Eu sou mais belo e forte a cada entrega e no toque sábio.

Somos mais sinceros hoje. Somos mais unidos ao estarmos livres de tudo que chamam de entrega e fidelidade. Sou fiel ao sentimento, unicamente a ele, a quem jamais irei mentir ou trair.

Neste descobrir do novo ser, nos novos prazeres absorvidos a cada leito que dividimos nesses anos, encontra-se o deixar partir quando queiras.

Por que nada será tão embriagante quanto a sincronia certa e o nublar do mundo ao reencontro de nossos corpos e momentos.

A ti, como prometido

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Entre amigos

- E aê meu irmão? Como anda sua novela diária que tú chama de namoro?
- ... Qual é seu problema?
- Como assim?
- Porra! Você é meu amigo cara, me amarro em ti. E sempre que tenho que trocar uma idéia com você, tudo o que você diz é para me deixar pior. Será que você podia ao menos tentar em ser camarada? É tão difícil assim?
- Velho... o dia que você pensar em deixar de lado tudo o que as pessoas falam e começasse a se escutar, com certeza eu pararia com isso. Aê, eu poderia ser um amigo que iria sorrir e servir uma cerva tranquilo, por que eu saberia que você está bem e feliz.
- ...
- Pode deixar, eu pago a conta da mesa. Mas quando chegar em casa pensa que amor é confiança e não palavras bonitas.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Clássica experiência

Uma fila se afunila ao passar pela porta, uma espiral enorme e com um carpete de veludo nos guia, como o coelho para Alice, a um novo mundo.

As pessoas acomodam-se em suas cadeiras, admiradas com um palco composto de luz, brilho, metais, cordas e um grupo de artistas. Todos em sintonia ao movimento de pulso, corpo e mão, que rege ao preciso tempo cada suspiro.

Somos apenas mais um instrumento, tocado neste onírico espaço. Nossos corações pulsam em cada troca, cada estância, em uníssono na mais completa harmonia.

Histórias inteiras são contadas por cada troca de instrumentos: pode-se ouvir o som do vento nas copas, as discussões dos casais, morte, guerra, amantes entre suspiros...

Sou grato pela sensibilidade de tentar entendê-la, por amar conhecer seus autores, suas peças, seus atos. Por ser uma expressão artística que carregarei comigo para sempre.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Tremor

Cheire o passado, deixe que corra por sua pele arrepiando cada pêlo. Sinta o vibrar da nuca e o morder dos lábios involuntários. O peito que queima como fogo, batendo tão rápido que faça você pensar que irá morrer e se sentir feliz por isso.

Uma única lágrima corre pelo seu rosto. Guarde ela contigo e deixa secá-la como o amor dedicado a quem jamais o mereceu.

Uma lágrima basta.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Academas

Ao caro cidadão que com a pena
Abriu as portas necessárias para seguir adiante

Permitindo ao cego a guiar-se
Acima do receio do peito aturdido

Permitindo encarar as trevas
e a luz com a diletante jovialidade

O caríssimo obrigado
Deste eterno e atento amigo

ao meu irmão, Pedro Mesquita

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Ônibus

Apertado, lotado, cheio de trabalhadores cansados e marcados pela rotina do ir e vir sem cessar. O ônibus segue: com essa massa abarrotada, seja nos dias quentes, chuvosos , abafados e radiantes.

Cheio de olhares perdidos, sonhadores e distraídos as pessoas seguem sua via pensando além.

No rosto dos jovens estudantes poderia estar suas matérias, saídas, encontros e possíveis novos amores. Vez após vez encontramos uma menina sorrindo mesmo apertada entre a cadeira e o mastro de metal que comprime sua coxa.

Note o olhar cansado da mulher, que passou o dia sentada, lutando contra a câimbra das panturrilhas malhadas pela obrigação do salto diário que cria as primeiras varizes.

Alguns homens olham para os carros do lado de fora, para as pessoas confortáveis dirigindo seus lindos carros de propaganda acompanhada de bichos de pelúcia. Eles olham atentos enquanto apertam contra o peito o saco plástico com seus DVD’s de 10 reais comprados na parada.

Alguns lêem livros. Alguns deles de romance, outros espíritas, alguns poucos escolares e em sua grande maioria é a bíblia. A mesma que ressalta murmúrios enquanto recitam para si a paz e compreensão que carregam em sua viagem.

Ao meu lado uma senhora lia Drummond: leu como quem esquecesse as malas que carregava entre as pernas e a bolsa apoiada no ombro esquerdo. Lia segurando seu livro com dois dedos, enquanto se agarrava ao mastro com a mão direita. Leu e fechou os olhos com um sorriso distante e maravilhado.

Por cima dos ombros consegui ler o que a permitiu viajar para longe do ônibus, para longe do espaço entre trabalho e lar.

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

Boa viagem meus caros.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Digerindo vidas

Ela se levanta da mesa e ainda estou com minha cara de idiota enquanto pago a conta. Estou tentando sair da mesa, quando vejo um senhor sentado na mesa a minha frente. Ele corta a carne de seu Filé com uma calma mecânica e parece sentir o aroma por alguns instantes antes de morder a fatia fina e vermelha e mastigar calmamente. No terceiro pedaço que ele mastiga fico intrigado e me aproximo da mesa.

- Desculpe mas não pude deixar de notar o prazer que come seu prato. Poderia me dizer o que é para que eu possa experimentar na próxima vez?

- O mesmo que você está comendo nesse instante meu rapaz.

- Não senhor, eu não comi carne hoje, eu pedi uma Pasta ao Fungi e...

- Você está comendo o mesmo que eu. Está ou não está apaixonado pela jovem que saiu de sua mesa há instantes?

Fico encabulado e presto atenção ao modo que volta a olhar para a comida e novamente para mim.

- Sente-se rapaz. Assim talvez você entenda o que eu quis dizer.

Ele olha atentamente para o prato a sua frente e então cerra os olhos como se para sentir o aroma delicioso da carne e suspirando começa a cortar a carne com leveza sem sequer olhar para mim.

- Relacionamentos são como incríveis refeições meu jovem. Inicialmente somos fisgados pelo aroma, por sua disposição, por sua aparência e componentes. Quando estamos satisfeitos, não notamos nem sequer o mais saboroso dos pratos. E famintos deixamos nos fisgar por qualquer coisa que nos ofereçam.

Ele deixa a carne parar uns instantes à sua frente e leva a boca com leveza, mastigando lentamente e com os olhos fechados e trêmulos.

- Ao aceitarmos a pessoa que amamos, a provamos notando todas suas exóticas qualidades e deleitamo-nos com seu sabor. Ela nos torna alguém estagiado, inteiro, vigoroso e único. Como se só nós pudéssemos entender o sabor que corre como energia por nossos corpos.

Ele engole com tranqüilidade e abre os olhos em direção a luz do teto do restaurante e então olha para mim.

- Após absorver essa pessoa, ela faz parte de nós. Alimenta-nos, fortalece, nos faz sentir dispostos e capazes de enfrentar nossos desafios e nossos receios. Estamos tão intimamente ligados que sabemos que ela está em nossos sonhos e confiamos que sua energia irá durar para sempre.

Eu arrepio ao perceber uma lágrima correr pelo meu rosto. Então levo um susto quando ele solta o talher no prato vazio e bebe rapidamente um copo de água.

- Mas depois garoto. No final tudo vira merda!